Nosso direito de acesso ao Patrimônio Histórico e Artistico tem sido impactado continuamente: MAM (RJ), Instituto Butantan (SP), Cinemateca Brasileira (SP), Museu da Língua Portuguesa (SP), entre outros, e, agora, o Museu Nacional (RJ). Além de museus destruídos, temos outros fechados à visitação, este é o caso do Museu Paulista (“Museu do Ipiranga” – SP), fechado e sem previsão de reformas há 4 anos.

Pesquisadores e população em geral, crianças e adultos, desta e das próximas gerações, perderam o direito de acesso à um acervo riquíssimo. 13 mil m2 de construção, 122 salas e 20 milhões de itens foram tragados pelo fogo em poucas horas. Na noite de 02 de setembro de 2018, uma riqueza inestimável e insubstituível foi destruída.

Todos nós, cidadãos, perdemos o direito de acesso a estas riquezas, as quais também foram interditadas às próximas gerações. O Museu Nacional do Rio de Janeiro abrigava coleções de História, Arqueologia, Paleontologia, Ciências Naturais e Artes. Também promovia cursos de extensão e de pós-graduação. De repente, do dia 02 para o dia 03 de setembro de 2018, ao fazermos referência ao Museu Nacional, passamos a usar os verbos no passado – ele “abrigava”, “promovia” – e hoje não se sabe qual será o destino desta grande instituição de exposição, ensino e pesquisa ligada a UFRJ.

Luzia, o fóssil humano mais antigos das Américas, com 11 mil anos, encontrada em Lagos Santa (MG), “morreu” neste incêndio. Este crânio (fóssil) de uma jovem negra indicava que houve, na Pré-História, mais de uma corrente migratória para o Brasil. Pesquisado por arqueólogos, entre eles Walter Neves, “Luzia” estimulou hipóteses inovadoras sobre a ocupação do homem na América. Estas pesquisas indicaram que os primeiros homens a chegar ao continente americano vieram também por mar, além do caminho pelo Estreito de Bering. Outras pesquisas junto a este objeto, após a destruição do museu, serão impossíveis.

O Museu Nacional também guardava uma importante coleção do Egito Antigo. Uma das suas múmias (presenteadas a D. Pedro II em uma de suas viagens ao Egito, em 1876), a de Sha- Amun-en-su, de 750 aC, estava ainda fechada dentro do sarcófago, o que é raro. Ironicamente, arqueólogos, seguindo uma tendência atual da Arqueologia, decidiram guardá-la intacta para pesquisas futuras com técnicas novas e diferenciadas. Estas pesquisas serão impossíveis.

Sobreviveu o meteorito, não por mérito do poder público, que se omitiu continuamente com drásticos cortes de verbas, mas por mérito de sua própria composição, já que resistiu ao impacto gerado na entrada da atmosfera terrestre e também, facilmente, ao incêndio do museu.

Todos os outros objetos não tiveram a mesma sorte.

A coleção de história e arte indígena, na sua riqueza, beleza e delicadeza, com obras em arte plumária, cestaria e cerâmica, acabou.

Objetos da África, como o trono de Daomé, feito em madeira, não resistiram.

O patrimônio das Ciências da Natureza também não sobreviveu: o acervo de botânica de Bertha Lutz, o grande esqueleto do dinossauro Maxakalisaurus topai encontrado em MG, os fósseis da Megafauna Pleistocênica – preguiça gigante e tigre-dente-de-sabre -, coleções de fauna – vertebrados e invertebrados, insetos, borboletas -, entre tantos outros.

Foram impactados também objetos – mobiliário, telas etc. – do Brasil Imperial, além do próprio prédio, expressão da presença portuguesa no final do período colonial (com D. João VI) e durante todo o período imperial (com D. Pedro I e D. Pedro II). O prédio sediou também a Assembleia Constituinte que promulgou a Constituição de 1891, a primeira da República. O prédio, de alguma maneira, ao menos em sua fachada, poderá sobreviver.

O Museu Nacional, fundado em 1818, completou 200 anos. Sintomaticamente, nenhum ministro compareceu à festa de aniversário dos 200 anos do museu. Tragicamente, não haverá outro aniversário.

Perdem os pesquisadores desta e das próximas gerações. Perdem os estudantes de todas as idades desta e das próximas gerações. Perdem os brasileiros que poderiam visitar e ser tocados pela diversidade e riqueza dos objetos expostos. Perde o mundo todo, pois uma luz, ou seja, um museu, com todas as suas expressividades e possibilidades, se apagou. A tarefa humana de conhecer e de se sensibilizar pela descoberta através das artes e das ciências, neste local, se inviabiliza. Enfim, ficamos mais pobres. Pobres e tristes.

Esperamos que o Museu Nacional do Rio de Janeiro, na figura de seus pesquisadores, estudantes, visitantes e admiradores, possa se reinventar. Para isso, devemos cobrar para que o governo federal dê a devida atenção ao nosso patrimônio, revertendo iniciativas destrutivas como as de corte e congelamento de gastos públicos realizados de forma severa a partir de 2016 (com a PEC 241 e seus cortes no setor público por até 20 anos). Estes cortes afetaram a cultura e a educação em profundidade. No caso do Museu Nacional, afetou-o de forma mortal. O acervo do Museu Nacional era um patrimônio de relevância mundial e, perante o mundo, o Estado brasileiro mostra tristemente que não cumpriu a função de guardião desta riqueza.

Mônica Carolina Savieto (professora do Colégio da Fundação Santo André e do curso de Bacharelado e Licenciatura em História do Centro Universitário da Fundação Santo André. Mestre pela PUC-SP)

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