Libaneses: pesquisa revela a cultura do Líbano por meio de uma biografia

A curiosidade da estudante de História, Valéria Thomé Izar Guerta, em desvendar parte da cultura religiosa dos libaneses, fez com que ela escrevesse a biografia de uma das primeiras imigrantes do Líbano no Brasil, Victoria Feres (1894-1991). Ainda adolescente, com 14 anos, a libanesa superou vários problemas, como o machismo e a adaptação à nova língua e, por meio da cultura alimentar, conseguiu montar seu restaurante, que se transformou em um dos mais importantes da culinária do seu país em São Paulo, abrindo as portas para a chegada de milhares de libaneses no Brasil.

A pesquisa faz parte do TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) de Valéria, intitulado “Libaneses em São Paulo por Meio do Olhar de uma Imigrante: a biografia de Victoria Feres”. No começo da pesquisa, Valéria queria abordar os aspectos religiosos do Líbano, mas aos poucos, o trabalho foi ganhando um novo corpo. “Me interessei por esta pesquisa, pois sou descendente de libaneses. A princípio, queria abordar a questão do conflito religioso, pois cresci vendo o ódio entre católicos e muçulmanos”, relatou.

Valéria apresentou TCC sobre a cultura libanesa por meio de uma biografia.

A pesquisa aconteceu por meio de entrevistas com alguns libaneses, mas o tema estava aberto, e por sugestão de seu orientador, começou a escrever a biografia de Victoria Feres. “Por meio dessa biografia, é possível conhecer a cultura de um povo como um todo, pois é uma biografia histórica, que não exalta a vida de Victoria, mas é por meio dela,  que podemos observar os costumes de um povo. É um pano de fundo para trabalhar o contexto histórico desta época”, afirmou.

De acordo com a pesquisadora, Victoria veio ao Brasil com apenas 14 anos, junto com a mãe e o esposo, de 15 anos. “Ela morreu em 1991, aos 94 anos.  Teve 8 filhos, alguns voltaram para o Líbano, levados pelo pai, e outros cresceram no Brasil”.

Valéria entrevistou uma das cinco netas de Victoria, Vivian Feres. “Ela me passou vários detalhes do conflito religioso que acontece no Líbano”, comentou. Além de entrevistas, o livro “Memórias da Imigração Sírio Libanesa em São Paulo”, serviu como base de pesquisa. Segundo a pesquisadora, a obra aborda, de forma superficial, sobre a guerra religiosa. “ Percebi que os libaneses católicos convivem entre si de forma passiva com os muçulmanos”, comentou.

Ambição Comercial – De acordo com Valéria, a jovem adolescente, quando chegou ao Brasil, foi morar na região da rua 25 de março, onde, hoje, encontra-se uma grande comunidade libanesa. “Ela foi uma das primeiras moradoras do local, e teve muitas dificuldades para se estabelecer. Aos poucos, conseguiu se superar por conta de uma das características da cultura libanesa, que é a ambição comercial. “Nos momentos de dificuldades, ela teve de sair às ruas para vender comida libanesa e foi conquistando os clientes”, relatou.

Machismo – Uma das características da cultura libanesa do início do século foram os traços machistas que estão muito presentes nos depoimentos que coletou com os familiares de Vitória. “Lá, na ausência dos pais, o irmão é o responsável, pela educação de suas irmãs, tanto das famílias cristãs, como das muçulmanas. Eles compartilham da mesma característica. Um exemplo disso, é o casamento arranjado. É um aspecto que a Dona Victoria e sua neta, Vivian, relatam em seus depoimentos. Um bem comum é o casamento arranjado e o sistema patriarcal”, comentou.

Emoção e choro – Todos esses depoimentos são permeados de emoção e muito choro. Dona Victoria teve 8 filhos, porém, nos anos 30, seu marido voltou para o Líbano, levando consigo quatro deles, deixando-a sozinha para cuidar dos outros quatro. Seu marido retornou ao Brasil 20 anos mais tarde, nos anos 50, já doente, falecendo logo em seguida. “Por isso, as recordações são muito emotivas”, comentou.

Comida – Um ponto peculiar na cultura libanesa é a comida. Foi por meio das guloseimas que Dona Victoria conseguiu ser referência para toda uma geração de imigrantes. “ A alimentação é um elemento cultural muito forte, um pretexto para a socialização. Eles gostam muito de receber pessoas e de preparar uma boa mesa de comida. A Dona Victoria é uma das pioneiras no ramo de alimentação da cozinha árabe. Sozinha, conseguiu criar seus quatro filhos que ficaram no Brasil, vendendo comida libanesa. Ela fundou nos anos 40, sozinha, um restaurante para a venda de kibes e esfihas que existe até hoje, o “ Braserie Victoria”, que ainda continua nas mãos de seus netos, finalizou.

 

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