Você está visualizando atualmente Pedagogia: Alfabetização e práticas sociais de leitura e escrita

Pedagogia: Alfabetização e práticas sociais de leitura e escrita

Compartilhe
10 Views · 

A alfabetização vista pela pedagogia deveria ir além do domínio mecânico do alfabeto. Quando se considera a leitura e a escrita como práticas sociais, a pedagogia assume a tarefa de formar leitores e escritoras plenos — sujeitos que usam a escrita com sentido, propósito e autonomia desde os primeiros encontros com a escola.

Alfabetização como direito e como prática social

Tratar alfabetização como um direito implica assegurar que crianças, jovens e adultos participem de culturas do escrito e se apropriem do sistema de escrita e da linguagem escrita desde o começo da escolaridade. Essa concepção, cara à pedagogia contemporânea, parte da ideia de que ler e escrever não são fins isolados, mas práticas integradas a objetivos reais: rotular uma escultura, preencher uma lista, escrever uma carta, compreender instruções.

Escrita como sistema, não apenas código

Entender a escrita como um sistema significa reconhecer que o aprendizado envolve simultaneamente a apropriação das convenções alfabéticas e o uso funcional da linguagem escrita. A pedagogia que trabalha nesse sentido organiza propostas em que a criança lê para ler e escreve para escrever, ou seja, aprende exercendo as práticas.

Quatro situações didáticas que potencializam o aprendizado

Para que a leitura e a escrita se tornem objetos de ensino relevantes, é útil articular quatro situações didáticas fundamentais:

  • Leitura por meio do professor: o professor lê textos e modela comportamentos de leitor.
  • Escrita por meio do professor: o professor escreve sob ditado das crianças ou registra coletivamente, tornando visível o processo de produção textual.
  • Leitura pelos estudantes: propostas em que as crianças praticam a leitura por conta própria, mesmo em níveis iniciais (títulos, legendas, rótulos).
  • Escrita pelos estudantes: atividades em que a criança produz escrita com sentido e função social, ainda que com marcas do processo de descoberta.

Essas situações ganham força quando organizadas por modalidades didáticas amplas, como projetos e sequências que permitem experimentar várias atividades em torno de um mesmo propósito.

Exemplo prático: nomeando esculturas de uma festa popular

Em uma sequência de leitura sobre manifestações de cultura popular, crianças da educação infantil produziram esculturas em papel machê inspiradas na narrativa de um folguedo. Para a exposição às famílias, precisaram criar plaquinhas com os nomes dos personagens.

Nessa tarefa as crianças foram convidadas a escrever com propósito social: nomear e identificar suas esculturas. As intervenções docentes tiveram características centrais para a aprendizagem:

  • A oferta de referências escritas em murais e listas, não como modelo de cópia, mas como fonte de informação a partir da qual a criança pensa.
  • A problematização constante: perguntas que devolvem à criança o que ela já escreveu e a encorajam a explicitar seu raciocínio.
  • O respeito às hipóteses que as crianças produzem: aceitar escritas iniciais como manifestações do pensamento sobre o sistema de escrita.

Nesse contexto, a consciência fonológica é resultado do uso da escrita, não um pré-requisito isolado exigido antes do contato com textos significativos. A pedagogia aqui privilegia a relação entre uso e aprendizagem.

Intervenções docentes: orientações práticas

Algumas orientações simples ajudam a transformar intervenções em oportunidades de avanço:

  • Problematizar o que a criança já escreveu em vez de apenas corrigir.
  • Oferecer informações (palavras escritas, títulos, parlendas) para que a criança compare e reflita.
  • Alternar momentos de escrita individual com momentos de interlocução compartilhada.
  • Estimular a explicitação de procedimentos: “Que palavra te ajudou? Como você pensou nessa letra?”
  • Garantir repertório por meio de leituras sistemáticas: livros, parlendas, nomes e textos do cotidiano.
  • Valorizar as vozes das crianças e promover uma escuta atenta e sensível.

Projetos didáticos como organização potente

Projetos didáticos permitem articular as quatro situações didáticas de maneira natural. Um projeto sobre reescrita de contos, por exemplo, mobiliza leituras por meio do professor, repertório coletivo, produção escrita de diferentes naturezas e atividades de exposição pública. A pedagogia que usa projetos cria condições para que a criança exercite práticas reais da linguagem.

A postura política da escolha pedagógica

Escolher alfabetização centrada em práticas sociais não é neutro. É uma decisão político-pedagógica que exige compromisso com o direito à leitura e à escrita e com a equidade. Essa postura implica acreditar nas capacidades das crianças independentemente do contexto socioeconômico e organizar a formação docente e o trabalho de sala para assegurar essas oportunidades.

“A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato.”

Essa imagem poética lembra que as vozes que chegam à escola trazem história, memória e potência. Ouvir de modo ativo e transformar essa escuta em caminhos de aprendizagem é tarefa central da pedagogia.

Recursos e próximos passos

Para aprofundar práticas articuladas de alfabetização na pedagogia, busque materiais que expliquem as quatro situações didáticas e ofereçam exemplos de intervenções contextualizadas. Cursos e percursos formativos que valorizem a leitura compartilhada, a escrita coletiva e a análise das produções infantis ajudam a fortalecer a prática docente.

Pequenos ajustes no cotidiano — murais com palavras, rotinas de leitura por meio do professor, tempo para escrita autônoma e registro das hipóteses das crianças — já transformam muito da experiência de alfabetização.

Conclusão

A alfabetização pensada pela pedagogia como prática social reconecta leitura e escrita ao sentido, ao uso e à vida. Ao organizar propostas que garantam participação nas culturas do escrito e ao intervir respeitando o pensamento da criança, a escola cumpre seu papel: formar leitores e escritoras capazes de usar a escrita com autonomia e significado.

Saiba mais sobre os cursos da FUNDAÇÃO SANTO ANDRÉ

Viva novas experiências de aprendizagem.

Clique aqui.

Deixe um comentário