Libras é uma língua? Entenda como funciona e por que ela é importante para a acessibilidade
⏱️ Tempo de leitura: 7 minutos
Se você nunca teve contato com a Libras, talvez já tenha imaginado que ela funciona como uma espécie de português feito com as mãos.
Não funciona.
A Língua Brasileira de Sinais, Libras, é uma língua com estrutura gramatical própria, utilizada por parte da comunidade surda brasileira. Ela permite conversar, contar histórias, explicar ideias abstratas, fazer perguntas, expressar sentimentos, estudar, trabalhar e participar de diferentes situações do cotidiano.
No Brasil, a Libras é reconhecida legalmente como meio de comunicação e expressão desde 2002, por meio da Lei nº 10.436. A própria legislação a define como um sistema linguístico de natureza visual-motora e com estrutura gramatical própria.
A data de 26 de setembro, Dia Nacional dos Surdos, ajuda a abrir espaço para conhecer melhor essa língua e compreender algumas das barreiras de comunicação que ainda fazem parte da rotina de pessoas surdas. O dia foi instituído pela Lei nº 11.796/2008.
Resposta rápida: Libras é uma língua ou uma linguagem?
Libras é uma língua.
Ela possui vocabulário e regras próprias para organizar e transmitir informações. As mãos são uma parte importante da comunicação, mas movimentos, localização dos sinais, orientação e expressões faciais e corporais também participam da construção do significado.
Por isso, a Libras não é apenas um conjunto de gestos e também não corresponde a substituir cada palavra do português por um sinal.
Ela possui uma organização linguística própria.
O que significa Libras?
Libras é a sigla para Língua Brasileira de Sinais.
O nome já traz uma informação importante: estamos falando da língua de sinais utilizada no Brasil.
Isso também ajuda a corrigir uma expressão que ainda aparece com frequência: “linguagem de sinais”.
Quando estamos falando especificamente da Libras, a forma adequada é Língua Brasileira de Sinais.
“Linguagem” é um conceito mais amplo. Música, imagens, símbolos, programação e diferentes sistemas podem constituir formas de linguagem.
Uma língua, por sua vez, possui uma estrutura linguística que permite a comunicação entre seus usuários.
Libras é português feito com as mãos?
Não.
Português e Libras são línguas diferentes.
Isso significa que uma frase em Libras não precisa seguir exatamente a mesma estrutura de uma frase escrita ou falada em português.
Também não existe necessariamente uma correspondência direta entre cada palavra em português e um único sinal.
Pense em outro idioma.
Ao traduzir uma frase do português para o inglês, por exemplo, nem sempre é possível substituir palavra por palavra e manter o mesmo sentido e a mesma estrutura.
Com Libras acontece algo semelhante: traduzir envolve compreender o significado da mensagem e organizá-la de acordo com a estrutura da outra língua.
Por isso, interpretação em Libras não é simplesmente sinalizar as palavras de um texto na mesma ordem em que aparecem em português.
Como os sinais são formados?
Pode parecer que um sinal depende apenas do formato feito pelas mãos, mas há outros elementos envolvidos.
Entre os componentes utilizados para formar e diferenciar sinais estão:
- configuração das mãos: como mãos e dedos estão posicionados;
- local ou ponto de articulação: onde o sinal é realizado;
- movimento: como as mãos se deslocam;
- orientação: para onde as mãos e palmas estão direcionadas;
- expressões faciais e corporais: elementos não manuais que também podem participar da construção do significado.
Mudanças nesses elementos podem alterar aquilo que está sendo comunicado. Materiais educacionais do governo também descrevem a Libras como uma língua visual articulada pelas mãos, expressões faciais e pelo corpo.
Por isso, aprender Libras não significa apenas memorizar desenhos ou posições das mãos; é preciso aprender a língua e seu uso em diferentes contextos.
Então as expressões faciais fazem parte da Libras?
Sim!
Expressões do rosto e movimentos corporais não são apenas uma forma de deixar a comunicação “mais expressiva”. Eles podem desempenhar funções linguísticas.
Dependendo da construção, elementos não manuais ajudam a indicar perguntas, intensidade, negação e outras informações importantes para compreender uma mensagem.
É uma das razões pelas quais observar apenas as mãos não é suficiente para acompanhar uma conversa em Libras.
E o alfabeto em Libras?
Você provavelmente já viu imagens mostrando diferentes posições das mãos correspondentes às letras A, B, C, D e assim por diante.
Esse recurso é conhecido como alfabeto manual ou datilologia.
Ele é útil, por exemplo, para soletrar determinados nomes próprios ou palavras em situações específicas.
Mas o alfabeto manual não é a Libras inteira.
Imagine tentar conversar em português soletrando letra por letra todas as palavras. Tecnicamente seria possível transmitir algumas informações, mas essa não é a maneira natural de utilizar a língua.
Na Libras, existem sinais e estruturas próprias para construir a comunicação. A datilologia é apenas um dos recursos disponíveis.
A Libras é universal?
Não.
Uma pessoa que utiliza Libras no Brasil não necessariamente conseguirá chegar a outro país e conversar normalmente com qualquer pessoa surda utilizando os mesmos sinais.
Existem diferentes línguas de sinais no mundo.
Nos Estados Unidos, por exemplo, é utilizada a American Sign Language, ASL. Outros países possuem suas próprias línguas de sinais.
Assim como acontece com línguas faladas, elas se desenvolvem dentro de comunidades e contextos culturais diferentes. Fontes oficiais brasileiras também destacam que as línguas de sinais não são universais.
Existem sotaques ou diferenças regionais em Libras?
Existem variações linguísticas.
Um determinado sinal utilizado em uma região pode ser diferente daquele usado em outra.
Isso não significa que uma das formas esteja necessariamente errada.
Pense nas diferenças existentes dentro do próprio português brasileiro.
Dependendo do lugar, algo pode ser chamado de mandioca, aipim ou macaxeira. O jeito de falar e algumas palavras também mudam conforme região, idade, grupo social e contexto.
As línguas de sinais também apresentam variações.
Toda pessoa surda usa Libras?
Não. E esse também é um ponto importante.
As experiências das pessoas surdas não são todas iguais.
Há pessoas que têm Libras como sua principal língua de comunicação, outras utilizam principalmente a língua portuguesa oral ou escrita, algumas fazem leitura labial, utilizam tecnologias assistivas ou combinam diferentes recursos.
Por isso, acessibilidade não deve partir da ideia de que existe uma única solução para todas as pessoas surdas.
Quando existe uma situação concreta, compreender a forma de comunicação utilizada por aquela pessoa ajuda a definir quais recursos serão adequados.
Essa lógica também aparece no artigo Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência: acessibilidade se constrói em conjunto, em que mostramos como conhecer a situação e ouvir o próprio estudante ajuda a identificar as barreiras existentes.
Pessoa surda e pessoa com deficiência auditiva são a mesma coisa?
Os termos podem aparecer em contextos diferentes, e a forma como uma pessoa se identifica também deve ser respeitada.
O Decreto nº 5.626/2005, que regulamenta a Lei de Libras, utiliza pessoa surda para se referir, naquele contexto legal, à pessoa que compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais e manifesta sua cultura principalmente pelo uso da Libras. O decreto também apresenta uma definição própria para deficiência auditiva.
Na prática, pessoas com diferentes graus e experiências de perda auditiva podem ter relações bastante diferentes com Libras, oralização, aparelhos auditivos, implantes, leitura labial e identidade surda.
Por isso, não é uma boa ideia presumir como alguém prefere se comunicar apenas a partir da informação de que essa pessoa não ouve ou ouve parcialmente.
E “surdo-mudo”? Posso usar essa expressão?
É melhor não.
Surdez está relacionada à audição e não significa que uma pessoa seja incapaz de produzir fala.
Uma pessoa surda pode ser oralizada ou não, utilizar Libras ou outras formas de comunicação.
Por isso, utilize pessoa surda ou a forma de identificação indicada pela própria pessoa.
Qual é o papel do intérprete de Libras?
O tradutor e intérprete de Libras-Língua Portuguesa faz a mediação linguística entre pessoas que utilizam línguas diferentes.
Em uma aula, palestra ou evento, por exemplo, esse profissional pode interpretar aquilo que está sendo dito em português para Libras e a comunicação feita em Libras para o português.
Isso não significa que o intérprete esteja falando “pela pessoa surda”.
Se você estiver conversando com uma pessoa surda acompanhada por um intérprete, dirija-se à própria pessoa, e não ao intérprete.
O Decreto nº 5.626/2005 trata, entre outros aspectos, da formação e da presença desses profissionais no contexto educacional.
Legenda e intérprete de Libras são a mesma forma de acessibilidade?
Não, são recursos diferentes.
Uma janela de Libras disponibiliza a interpretação de determinado conteúdo para a língua de sinais.
Já uma legenda para pessoas surdas ou ensurdecidas apresenta por escrito informações faladas e, dependendo do recurso, também outros elementos sonoros importantes.
Um recurso não deve ser automaticamente considerado substituto do outro, porque as necessidades linguísticas e formas de comunicação podem ser diferentes. Normas atuais de acessibilidade do Ministério da Cultura, por exemplo, tratam janela de interpretação em língua de sinais e legendas para surdos e ensurdecidos como recursos distintos.
Por que Libras é uma questão de acessibilidade?
Imagine receber uma orientação importante em uma língua que você não domina.
A informação está ali, mas isso não significa que esteja acessível para você.
É por isso que acessibilidade comunicacional envolve observar como as informações são produzidas e para quem elas precisam chegar.
Em diferentes situações, isso pode envolver:
- tradução e interpretação em Libras;
- vídeos com janela de Libras;
- legendas;
- materiais escritos acessíveis;
- recursos tecnológicos;
- profissionais capacitados;
- organização adequada do ambiente para favorecer a comunicação.
A combinação necessária dependerá das pessoas envolvidas e do contexto.
Libras também aparece na formação universitária?
Sim.
O Decreto nº 5.626/2005 determina a presença de Libras como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores. Isso inclui as licenciaturas, Pedagogia e outras formações voltadas ao exercício do magistério.
Nos demais cursos de Educação Superior, o decreto estabelece Libras como disciplina curricular optativa.
Esse contato é especialmente relevante para profissionais que poderão encontrar pessoas surdas em escolas, empresas, serviços públicos, hospitais e diferentes espaços da sociedade.
Uma disciplina de Libras, porém, não significa automaticamente que alguém se tornará fluente. Assim como acontece com outros idiomas, desenvolver domínio da língua exige estudo e contato contínuo.
Aprender alguns sinais já ajuda?
Pode ajudar a iniciar um contato, desde que isso venha acompanhado de respeito pela língua e pela pessoa com quem você está conversando.
Aprender uma saudação, apresentar seu nome ou conhecer algumas expressões básicas pode facilitar determinadas interações.
Ao mesmo tempo, não é adequado presumir que conhecer algumas palavras seja suficiente para interpretar uma conversa complexa, uma aula ou uma informação técnica.
Quando existe necessidade de interpretação profissional, esse trabalho deve ser realizado por quem possui formação e competência para a função.
Acessibilidade começa pela comunicação
Conhecer a Libras ajuda a perceber algo que pode passar despercebido para quem sempre recebeu informações em sua própria língua.
Uma aula pode ter ótima iluminação, mobiliário acessível e materiais organizados e, ainda assim, apresentar uma barreira se o estudante não tiver acesso linguístico ao conteúdo.
O mesmo pode acontecer em um vídeo, uma palestra, um atendimento ou uma orientação institucional.
Na FSA, o conteúdo Acessibilidade na faculdade: o que observar e quais apoios podem fazer parte da vida universitária? aprofunda como barreiras podem aparecer na comunicação, nos espaços, nas atividades acadêmicas e na tecnologia.
O Dia Nacional dos Surdos, celebrado em 26 de setembro, é uma oportunidade para conhecer melhor essas questões, mas a comunicação acessível precisa fazer parte das atividades ao longo de todo o ano.