Folclore brasileiro: por que essas histórias e tradições continuam importantes?
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Saci, Curupira, Iara, Boto-cor-de-rosa. Para muita gente, o primeiro contato com a palavra folclore acontece na escola e vem acompanhado desses personagens.
Eles fazem parte desse universo, mas o folclore brasileiro é bem maior do que uma coleção de lendas.
Festas, músicas, danças, histórias transmitidas oralmente, artesanato, formas de celebrar, costumes, saberes e práticas mantidas por diferentes comunidades também ajudam a formar aquilo que chamamos de cultura popular brasileira.
O dia 22 de agosto é oficialmente o Dia do Folclore no Brasil desde 1965. A escolha da data faz referência a 22 de agosto de 1846, quando a palavra inglesa folk-lore foi utilizada pela primeira vez para designar o conjunto de conhecimentos e tradições populares.
Resposta rápida: o que é folclore brasileiro?
Folclore é o conjunto de conhecimentos, tradições e manifestações culturais compartilhados e transmitidos entre pessoas e comunidades.
Isso pode incluir narrativas, festas, músicas, danças, crenças, brincadeiras, modos de fazer, literatura oral, artesanato e muitas outras expressões.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, explica que muitas práticas culturais dessa natureza são transmitidas entre gerações e, ao mesmo tempo, recriadas pelas comunidades conforme seu ambiente, sua história e as mudanças da própria sociedade.
Por isso, folclore não é apenas algo antigo que precisa ser repetido exatamente da mesma maneira.
Folclore não é sinônimo de lenda
As lendas são uma das formas pelas quais conhecimentos e imaginários circulam entre gerações, mas reduzir o folclore ao Saci, à Cuca ou ao Curupira deixa uma parte enorme da cultura brasileira de fora.
Entre as manifestações relacionadas às culturas populares brasileiras estão festas, danças, ritmos, literatura, artesanato e celebrações.
O próprio poder público já reuniu entre exemplos relacionados ao folclore brasileiro expressões como frevo, maracatu, jongo, carimbó, literatura de cordel, Bumba Meu Boi, samba, congada, Folia de Reis, forró, capoeira, quadrilhas juninas e diferentes formas de artesanato.
Isso significa que você provavelmente já teve contato com manifestações da cultura popular muitas vezes sem pensar nelas como folclore.
Por que existe um Dia do Folclore em 22 de agosto?
A data foi instituída no Brasil pelo Decreto nº 56.747, de 17 de agosto de 1965.
O próprio decreto relaciona a escolha de 22 de agosto ao uso da palavra Folk-Lore em 1846 e destaca a importância dos estudos do folclore para o conhecimento da cultura popular brasileira. O texto também incentiva instituições de ensino a desenvolver atividades que valorizem a importância do tema na formação cultural do país.
A data, portanto, não surgiu apenas como uma comemoração de personagens populares. Desde sua criação oficial no Brasil, ela também esteve relacionada ao estudo, à pesquisa e à valorização das manifestações culturais.
De onde vem a palavra folclore?
A palavra tem origem na expressão inglesa folk-lore.
De maneira simplificada, folk pode ser relacionado a povo e lore a conhecimento ou saber. A expressão passou a ser utilizada no século XIX para reunir tradições, crenças, costumes, histórias e outros conhecimentos populares que pesquisadores buscavam registrar.
O modo de estudar essas manifestações mudou bastante desde então.
Hoje, pesquisadores procuram considerar as culturas populares dentro de seus contextos históricos e sociais, reconhecendo que tradições não existem separadas das pessoas que as praticam e que podem mudar ao longo do tempo.
Então uma tradição pode mudar e continuar sendo tradição?
Pode. E essa talvez seja uma das ideias mais interessantes para entender o folclore.
O Iphan explica que o patrimônio cultural imaterial é transmitido entre gerações, mas também é constantemente recriado pelas próprias comunidades, de acordo com sua história, ambiente e relações sociais.
Uma festa popular pode incorporar novos elementos. Uma música pode ganhar outros instrumentos. Uma história pode receber versões diferentes conforme a região. Um modo de fazer pode se adaptar a materiais que passaram a estar disponíveis.
Isso não significa necessariamente que a tradição desapareceu.
Em muitos casos, justamente essa capacidade de adaptação permite que determinada prática continue fazendo sentido para quem a mantém.
Existe um único folclore brasileiro?
É mais adequado pensar na grande diversidade de culturas populares existentes no Brasil.
O país reúne comunidades, territórios, histórias e tradições muito diferentes. O patrimônio cultural brasileiro reconhece justamente referências associadas aos diferentes grupos que formam a sociedade.
Uma manifestação do Norte pode ter características bastante diferentes de outra encontrada no Sul. Uma festa pode possuir versões distintas em estados vizinhos. Saberes de comunidades indígenas, quilombolas, caiçaras, sertanejas, ribeirinhas e de muitos outros grupos também estão relacionados a experiências históricas e culturais próprias.
Conhecer o folclore, portanto, também significa perceber que a cultura brasileira não cabe em uma única lista de personagens ou tradições.
Folclore e patrimônio cultural são a mesma coisa?
Os conceitos se aproximam, mas não são exatamente sinônimos.
Patrimônio cultural pode ser material, como edifícios, objetos, documentos e conjuntos urbanos, ou imaterial, relacionado a saberes, celebrações, formas de expressão, modos de fazer e práticas culturais.
Muitas manifestações das culturas populares podem ser reconhecidas como patrimônio cultural imaterial, mas isso não significa que toda manifestação folclórica possua automaticamente um registro oficial.
O Iphan mantém instrumentos específicos de identificação, registro e salvaguarda de bens culturais imateriais considerados referências para grupos formadores da sociedade brasileira.
Essa diferença também cria uma boa conexão com outro assunto que já tratamos aqui no blog da FSA: a Casa Amarela, patrimônio histórico localizado no campus da Fundação Santo André. Ali falamos principalmente de uma construção e de sua relação com a história da cidade. No folclore, nosso olhar se volta especialmente para práticas, conhecimentos e expressões culturais.
O que significa preservar uma tradição cultural?
Preservar uma manifestação imaterial não significa necessariamente impedir que ela mude.
No campo do patrimônio cultural, utiliza-se bastante a ideia de salvaguarda, que envolve identificar, documentar, transmitir, valorizar e criar condições para que determinados conhecimentos e práticas continuem existindo. O Brasil possui uma política específica para patrimônio cultural imaterial coordenada pelo Iphan.
E há uma diferença importante: quem mantém essas tradições são as próprias comunidades.
Pesquisadores, escolas, museus e instituições culturais podem documentar, estudar e apoiar essas práticas, mas uma manifestação cultural permanece viva porque existem pessoas que continuam atribuindo significado a ela.
Por que estudar folclore na escola?
Estudar folclore permite trabalhar temas que aparecem em diferentes disciplinas.
Na Literatura, é possível observar narrativas orais e formas de contar histórias.
Na História, essas manifestações ajudam a investigar grupos, períodos, conflitos e mudanças sociais.
Na Geografia, permitem discutir territórios e diferenças regionais.
Nas Artes, aparecem músicas, danças, festas, objetos, performances e formas visuais de expressão.
Nas Ciências Humanas, o assunto ainda abre espaço para estudar identidade, religião, relações sociais, diversidade e memória.
Na universidade, temas ligados à cultura popular também podem aparecer em projetos de pesquisa e extensão universitária, aproximando o conhecimento acadêmico das comunidades e de suas manifestações culturais.
O próprio decreto que instituiu o Dia do Folclore já relacionava a data às instituições de ensino e à importância dessas manifestações para a formação cultural.
Por que o folclore continua sendo estudado?
Porque cultura popular também ajuda a compreender como uma sociedade se vê, como transmite conhecimentos e como interpreta experiências coletivas.
Uma história contada por várias gerações pode revelar medos e valores. Uma festa pode reunir elementos religiosos, econômicos, artísticos e sociais. Uma receita pode guardar técnicas e ingredientes associados à história de determinada comunidade.
Por isso, estudar essas manifestações não significa apenas olhar para o passado.
O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, ligado ao Iphan, desenvolve atividades de pesquisa, documentação, difusão e apoio às culturas populares brasileiras, mostrando que esse continua sendo um campo ativo de produção de conhecimento.
Cultura também muda quando as pessoas mudam
Talvez a imagem mais interessante do folclore não seja a de uma tradição guardada em uma vitrine.
É a de algo que continua circulando.
Uma música aprendida com familiares, uma festa que reúne uma comunidade todos os anos, uma história que recebe uma versão diferente, uma receita ensinada entre gerações ou uma expressão cultural que passa a ocupar novos espaços continua estabelecendo relações entre memória e presente.
Conhecer essas manifestações ajuda a perceber a diversidade cultural brasileira e também a desenvolver um olhar mais atento para aquilo que existe ao nosso redor.
Durante a graduação, esse contato também pode acontecer em eventos culturais, projetos, oficinas e outras atividades complementares que ampliam as experiências para além das disciplinas obrigatórias.
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