Você está visualizando atualmente Casa Amarela da FSA: história de um patrimônio de Santo André

Casa Amarela da FSA: história de um patrimônio de Santo André

Compartilhe
2 Views

Casa Amarela da Fundação Santo André: a história de um patrimônio de Santo André

⏱️ Tempo de leitura: 7 minutos

Quem passa pelo campus da Fundação Santo André provavelmente percebe uma construção bastante diferente dos demais prédios universitários. Com dimensões menores, paredes amarelas e características arquitetônicas que remetem a outro período da cidade, a Casa Amarela hoje abriga a Reitoria da FSA.

Sua história, porém, começou antes da própria Fundação Santo André.

Localizada na área do antigo Sítio Tangará, a edificação foi provavelmente construída entre as décadas de 1920 e 1930 e fez parte de uma época em que Santo André ainda possuía grandes propriedades utilizadas para lazer e veraneio. Atualmente, a Casa Amarela é patrimônio cultural protegido do município.

Conhecer essa história ajuda a perceber que patrimônio não é apenas aquilo que encontramos em museus, cidades antigas ou centros históricos distantes. Ele também pode estar no caminho que você percorre todos os dias para chegar à faculdade.

O que é a Casa Amarela da Fundação Santo André?

A Casa Amarela é uma construção histórica localizada no campus da Fundação Santo André, na Avenida Príncipe de Gales.

Antes da formação do atual campus universitário, o terreno fazia parte do Sítio Tangará, propriedade ligada à família de Charles Murray. A construção funcionava como apoio às atividades realizadas na propriedade, que possuía um campo de golfe frequentado pela família e seus convidados.

Hoje, o edifício abriga a Reitoria do Centro Universitário Fundação Santo André.

Para a Profa. Ana Lara Bueno, arquiteta e urbanista e docente da FSA que pesquisa patrimônio cultural, a importância da construção está justamente na capacidade de contar essa história:

“É um testemunho vivo de toda a história do ABC e de Santo André.”

A Casa Amarela permite observar, em uma mesma construção, mudanças na arquitetura, nos costumes, na ocupação do território e no desenvolvimento da própria cidade.

Antes da FSA, existia o Sítio Tangará

Para entender a Casa Amarela, precisamos imaginar uma Santo André bastante diferente daquela que conhecemos atualmente.

O território onde hoje está a Fundação Santo André fazia parte do Sítio Tangará, propriedade da família Murray. A área não tinha como principal finalidade a produção agrícola. Era utilizada especialmente para lazer, com um campo de golfe que reunia integrantes da família e outras famílias de origem britânica que mantinham relações na região.

Charles Murray e sua família também mantinham uma residência na região central de Santo André, na antiga Vila Mimosa, onde atualmente funciona o Clube Primeiro de Maio.

Essas propriedades ajudam a contar um período da história urbana de Santo André em que sítios e chácaras ainda ocupavam áreas que mais tarde seriam incorporadas à expansão da cidade.

Quando a Casa Amarela foi construída?

Não existe uma data exata conhecida para a construção.

Segundo a Profa. Ana Lara, as pesquisas disponíveis permitem situá-la aproximadamente entre a década de 1920 e o início dos anos 1930.

Essa informação também ajuda a desfazer algumas histórias que circularam pelo campus ao longo dos anos. Uma delas associava a construção à existência de uma senzala, hipótese incompatível com o período em que a Casa Amarela foi construída, décadas depois do fim legal da escravidão no Brasil. A própria professora aborda essa questão ao apresentar a história do edifício no projeto Nós temos História, produzido pela FSA.

Pesquisar um patrimônio também tem essa função: separar documentos e evidências históricas de histórias que foram repetidas ao longo do tempo sem comprovação.

A arquitetura da Casa Amarela mistura diferentes referências

Um dos pontos que tornam a construção interessante para quem estuda Arquitetura e Urbanismo é justamente a dificuldade de colocá-la dentro de um único estilo.

A Casa Amarela pertence a um período marcado pelo ecletismo, quando referências arquitetônicas de diferentes momentos históricos podiam aparecer combinadas em uma mesma construção.

Durante muito tempo, a edificação foi relacionada principalmente ao estilo Missões, influência associada à arquitetura colonial hispânica. Pesquisas mais recentes citadas pela Profa. Ana Lara também identificam uma relação importante com o Tudor Revival, de origem britânica.

No interior, elementos como madeira escura trabalhada e a lareira de pedra remetem a essa referência inglesa. Na fachada, aparecem características relacionadas ao Missões e ao neocolonial, formando uma construção que reúne diferentes influências.

Há ainda detalhes que ajudam a aproximar a arquitetura das pessoas que viveram naquele espaço, como a porta de madeira e um vitral com as iniciais de Charles Murray.

Um edifício histórico, portanto, pode ser lido quase como um documento. Materiais, formas, ambientes e modificações realizadas ao longo dos anos oferecem pistas sobre a sociedade que o produziu.

Uma rampa que conta outra parte dessa história

Há um detalhe da Casa Amarela que talvez passe despercebido por quem observa apenas sua fachada.

A edificação possui uma rampa ligando diferentes níveis da construção.

No episódio 2 do projeto Nós temos História, a Profa. Ana Lara explica que a família Murray tinha um filho com dificuldade de locomoção e que a rampa teria sido criada para permitir sua participação nas atividades realizadas no local.

A característica chama atenção porque estamos falando de uma construção das primeiras décadas do século XX, muito anterior às atuais normas e políticas de acessibilidade.

Ana Lara relaciona essa solução arquitetônica ao esforço da família para integrar o filho às atividades desenvolvidas na propriedade e apresenta a construção como um exemplo bastante antigo de preocupação com acesso no município.

Esse detalhe mostra como estudar um patrimônio também pode revelar aspectos da vida cotidiana que dificilmente seriam percebidos apenas olhando fotografias antigas.

Como o Sítio Tangará se tornou parte da Fundação Santo André?

A transformação da região acompanhou o crescimento urbano de Santo André.

Na década de 1950, houve uma tentativa de loteamento da área do Sítio Tangará que acabou não sendo implantada. Em 1964, o terreno foi desapropriado, e posteriormente diferentes equipamentos públicos e institucionais passaram a ocupar partes da propriedade.

Entre eles estava a Fundação Santo André, criada em 1962 para manter a Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas, a FAECO, instituição de ensino superior criada pelo poder público municipal em 1953.

Nos anos seguintes, o campus cresceu, novos edifícios foram construídos e outras unidades acadêmicas surgiram.

A Casa Amarela permaneceu.

Essa permanência permite hoje comparar, dentro do próprio campus, diferentes momentos da arquitetura e do desenvolvimento urbano do Grande ABC.

A Casa Amarela como patrimônio preservado

A Casa Amarela é protegida como patrimônio cultural de Santo André. A preservação considera tanto a construção quanto os elementos históricos que ajudam a manter suas características.

Uma das ideias importantes quando se fala em preservação é que um edifício histórico não precisa permanecer sem utilização.

A Casa Amarela continua cumprindo uma função institucional e atualmente abriga a Reitoria da FSA. Para Ana Lara, esse é justamente um exemplo de reutilização compatível com as características de um patrimônio, permitindo a permanência do edifício sem exigir modificações incompatíveis com sua estrutura histórica.

Preservar, nesse caso, não significa congelar a construção em determinado momento. Significa permitir que ela continue sendo utilizada enquanto suas características históricas permanecem reconhecíveis.

As imagens abaixo fazem parte do acervo da Fundação Santo André:

17 de agosto e o patrimônio que está perto da gente

O dia 17 de agosto é dedicado no Brasil à valorização do patrimônio cultural.

A data é uma oportunidade para olhar para lugares que fazem parte da rotina e perceber que eles também podem ajudar a explicar a história de uma comunidade.

No caso da Casa Amarela, essa relação é especialmente visível porque a construção atravessou diferentes momentos do mesmo território.

Foi parte do Sítio Tangará, acompanhou a urbanização da região e, posteriormente, passou a integrar o campus da Fundação Santo André.

Hoje, estudantes passam diariamente por um edifício que existia décadas antes da criação da instituição em que estudam.

A Casa Amarela também faz parte da memória da FSA

Quando a Fundação Santo André passou a ocupar o antigo território do Sítio Tangará, a Casa Amarela ganhou uma nova etapa de sua história.

Memórias dos primeiros funcionários ajudam a mostrar como esse processo aconteceu.

No episódio 3, Nós temos História: a FSA em seu início, João Bento relembra sua chegada à instituição em 1968. Durante muitos anos, trabalhou como motorista da Casa Amarela, atendendo à diretoria e acompanhando um campus que ainda estava sendo formado.

Ele também participou do plantio de árvores e acompanhou a construção e a ampliação dos espaços da instituição.

Essas lembranças acrescentam outra camada à história do patrimônio. Além da arquitetura e dos documentos oficiais, existem as experiências das pessoas que trabalharam e estudaram naquele espaço.

O campus permite estudar diferentes períodos da arquitetura

A Casa Amarela não é o único edifício do campus que ajuda a contar a história da arquitetura regional.

Os prédios da FAECO, da FAFIL e de outras estruturas construídas posteriormente apresentam características associadas ao modernismo e à chamada escola paulista, criando um contraste interessante com a construção histórica do antigo Sítio Tangará.

A implantação desses edifícios também preservou a Casa Amarela, permitindo que construções de períodos bastante diferentes permaneçam no mesmo conjunto arquitetônico.

No artigo FAFIL 60 anos: história, arquitetura e legado, já contamos outra parte dessa história e mostramos como o campus acompanhou a expansão da formação superior no Grande ABC.

Para quem estuda Arquitetura e Urbanismo, essa convivência oferece a possibilidade de observar diferentes técnicas, linguagens arquitetônicas, formas de ocupação e relações entre edifício e cidade sem sair do campus.

Preservar também é compreender como a cidade mudou

A história da Casa Amarela não pode ser separada da história de Santo André.

Ao redor dela, uma área inicialmente marcada por propriedades de lazer foi sendo incorporada à urbanização, ganhou bairros, equipamentos públicos, vias, instituições e novas formas de ocupação.

É justamente essa relação entre arquitetura e cidade que aparece em diferentes trabalhos desenvolvidos pelo curso de Arquitetura e Urbanismo da FSA.

Ao falar sobre um projeto de melhoria urbanística desenvolvido em parceria com o município, o Prof. Enrique Staschower, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo, destacou a importância de pensar a cidade a partir da qualidade dos espaços utilizados pelas pessoas:

“A cidade tem que ter equipamentos saudáveis, como ruas, praças e calçadas adequadas.”

Embora a fala esteja relacionada a outro projeto urbano, ela ajuda a compreender uma questão presente também no estudo do patrimônio: edifícios não existem isoladamente. Eles fazem parte de ruas, bairros, paisagens e relações sociais que se modificam ao longo do tempo.

Arquitetura também é uma maneira de estudar a cidade

Para quem está terminando o Ensino Médio e pensa em cursar Arquitetura e Urbanismo, patrimônio histórico é uma das possibilidades de atuação e pesquisa dentro de uma área muito mais ampla.

A formação envolve estudar edifícios, cidades, paisagens, planejamento urbano, infraestrutura, sustentabilidade, acessibilidade e formas de ocupação do espaço. Na graduação em Arquitetura e Urbanismo da FSA, temas relacionados a patrimônio histórico, urbanismo, paisagem, infraestrutura urbana e desenho universal fazem parte da formação.

A própria Casa Amarela permite que parte dessas discussões aconteça a poucos metros das salas de aula.

Como resume a Profa. Ana Lara ao falar sobre a preservação do edifício, conhecer os vestígios do passado ajuda uma comunidade a reconhecer suas origens e compreender a própria identidade.

Quem passa pela Casa Amarela pode enxergar apenas um prédio antigo. Quem conhece sua história começa a perceber ali quase um século de mudanças na arquitetura, na cidade e na própria Fundação Santo André.

Se você se interessa por patrimônio, cidades, projetos e pela maneira como os espaços se relacionam com as pessoas, conheça o curso de Arquitetura e Urbanismo e as demais graduações da Fundação Santo André em www.fsa.br/graduacao.

Deixe um comentário