Legaltech: como a tecnologia está mudando o trabalho no Direito?
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Quando você pensa na rotina de quem trabalha com Direito, talvez imagine livros, leis, audiências, petições e tribunais. Tudo isso continua fazendo parte da profissão, mas hoje há outro elemento presente em boa parte dessas atividades: a tecnologia.
Processos eletrônicos, sistemas de acompanhamento processual, pesquisa automatizada de jurisprudência, plataformas para gestão de contratos, análise de dados e ferramentas de inteligência artificial já fazem parte do setor jurídico.
É nesse contexto que aparece o termo legaltech.
Resposta rápida: o que é legaltech?
Legaltech é um termo utilizado para se referir a tecnologias desenvolvidas ou aplicadas para resolver necessidades do setor jurídico.
Elas podem ajudar escritórios de advocacia, departamentos jurídicos de empresas, tribunais e outros profissionais em tarefas como organização de processos, controle de prazos, pesquisa jurídica, elaboração e revisão de documentos, gestão de contratos e análise de informações.
Algumas legaltechs são empresas especializadas em desenvolver essas soluções. Em outros casos, o termo também é usado de maneira mais ampla para falar das próprias ferramentas tecnológicas aplicadas ao Direito.
Por isso, quando alguém fala em tecnologia jurídica, não está falando apenas de inteligência artificial.
A digitalização do Direito começou bem antes da popularização das ferramentas de IA generativa.
O processo eletrônico já mudou a rotina jurídica
Um dos exemplos mais fáceis de perceber é o processo judicial eletrônico.
Quem pretende trabalhar com advocacia precisa se familiarizar com plataformas utilizadas para consultar processos, protocolar documentos, acompanhar movimentações e cumprir diferentes procedimentos digitais.
O PJe, Processo Judicial Eletrônico, é um dos sistemas utilizados pelo Judiciário brasileiro. O próprio Conselho Nacional de Justiça coordena seu desenvolvimento em conjunto com tribunais do país.
Esse processo faz parte de uma digitalização mais ampla do sistema de Justiça. O Programa Justiça 4.0, do CNJ, reúne iniciativas relacionadas a novas tecnologias, automação e inteligência artificial com o objetivo de tornar serviços judiciais mais acessíveis e eficientes.
Para quem está começando a estudar Direito, isso ajuda a entender por que aprender somente a teoria jurídica não é suficiente para conhecer a rotina profissional.
É preciso saber aplicar esse conhecimento nos ambientes em que o Direito funciona hoje.
Onde as legaltechs aparecem no trabalho de um advogado?
As possibilidades são variadas e dependem bastante da área de atuação.
Um escritório com centenas de processos, por exemplo, pode utilizar um sistema para reunir informações, distribuir tarefas entre a equipe, acompanhar prazos e identificar novas movimentações.
Já um departamento jurídico de uma empresa pode recorrer à tecnologia para organizar contratos, acompanhar vencimentos, localizar cláusulas específicas ou manter um histórico das negociações.
Também existem ferramentas voltadas para pesquisa de legislação, doutrina e jurisprudência. Em vez de procurar uma informação manualmente em diferentes fontes, o profissional pode utilizar sistemas que ajudam a localizar conteúdos relacionados ao caso que está analisando.
A tecnologia ainda pode aparecer em atividades como:
- gestão de processos e prazos;
- automação de documentos;
- pesquisa jurídica;
- gestão de contratos;
- organização de informações de clientes;
- acompanhamento de decisões judiciais;
- análise de dados jurídicos;
- proteção e tratamento de dados;
- atendimento e organização de demandas;
- apoio à elaboração e revisão de textos.
Isso não significa que todas essas tarefas possam ser simplesmente entregues a um software. A interpretação e a responsabilidade profissional continuam sendo parte central do trabalho jurídico.
E onde entra a inteligência artificial no Direito?
A inteligência artificial ampliou bastante essa discussão porque algumas ferramentas conseguem analisar grandes volumes de texto, localizar informações, resumir documentos e produzir conteúdos a partir das instruções de um usuário.
Na área jurídica, isso pode ser utilizado como apoio em pesquisas, organização de informações, comparação de documentos, análise inicial de contratos ou preparação de materiais.
Mas existe uma diferença importante entre utilizar uma ferramenta como apoio e confiar automaticamente no resultado apresentado por ela.
Uma IA generativa pode produzir informações incorretas, apresentar referências inexistentes ou interpretar um documento de maneira inadequada.
É por isso que o conhecimento jurídico continua necessário.
A própria OAB estabelece recomendações para o uso da inteligência artificial generativa na prática jurídica. Entre os pontos abordados estão confidencialidade, privacidade, ética profissional e necessidade de supervisão humana. A entidade também orienta que o julgamento profissional não seja delegado a sistemas de IA e chama atenção para a conferência das informações obtidas por essas ferramentas.
Em junho de 2026, a OAB também lançou um Plano Nacional de Integração da Inteligência Artificial na Advocacia, com ações relacionadas a governança, capacitação, boas práticas e uso responsável dessas tecnologias.
Ou seja, aprender a usar tecnologia não significa deixar de estudar Direito. Pelo contrário, quanto mais ferramentas aparecem, maior é a necessidade de saber avaliar aquilo que elas produzem.
A inteligência artificial vai substituir os advogados?
Essa pergunta aparece com frequência quando se fala em tecnologia e mercado de trabalho.
Hoje, é mais adequado pensar em mudança de tarefas do que em substituição completa da profissão.
Uma ferramenta pode encontrar palavras em centenas de documentos muito rapidamente. Também pode ajudar a organizar dados ou produzir uma primeira versão de determinado conteúdo.
Mas interpretar um caso, compreender seu contexto, definir uma estratégia jurídica, conversar com um cliente, avaliar riscos, sustentar uma posição e assumir responsabilidade pelo trabalho realizado envolvem competências profissionais que não podem ser simplesmente transferidas para uma plataforma.
No próprio Judiciário, o uso de inteligência artificial está sujeito a regras de governança, segurança, transparência e supervisão. A Resolução nº 615/2025 do Conselho Nacional de Justiça estabeleceu diretrizes específicas para o desenvolvimento e a utilização desses sistemas no Poder Judiciário e recebeu atualizações em 2026.
Para quem está pensando em seguir carreira jurídica, portanto, o cenário aponta para uma combinação entre conhecimento jurídico e capacidade de trabalhar com novas ferramentas.
O que um estudante de Direito precisa aprender sobre tecnologia?
Você não precisa saber programar para cursar Direito ou trabalhar com tecnologia jurídica.
Conhecimentos de programação podem abrir caminhos específicos, principalmente para quem se interessa pela relação entre Direito, tecnologia e desenvolvimento de produtos, mas não são uma exigência geral da profissão.
Algumas habilidades são mais próximas da rotina de grande parte dos profissionais.
Saber pesquisar bem é uma delas. Com tantas informações disponíveis, encontrar uma resposta rapidamente não resolve tudo. É preciso verificar a fonte, conferir se a legislação continua vigente, consultar a decisão original e analisar se aquele conteúdo realmente se aplica ao caso estudado.
Proteção de dados também merece atenção. Profissionais do Direito lidam frequentemente com documentos, dados pessoais e informações confidenciais. Antes de inserir esse tipo de material em qualquer plataforma, é necessário compreender como a ferramenta utiliza e armazena os dados.
Também é importante desenvolver uma boa capacidade de escrita, interpretação e argumentação. Uma ferramenta pode ajudar a organizar um texto, mas o profissional precisa saber identificar quando um argumento está incompleto, uma fonte foi utilizada de maneira inadequada ou uma conclusão não encontra respaldo jurídico.
A tecnologia muda algumas ferramentas de trabalho. A necessidade de raciocínio jurídico permanece.
Legaltech também cria novas possibilidades de carreira?
Sim. A aproximação entre Direito e tecnologia amplia as possibilidades para quem se interessa pelas duas áreas.
Além da advocacia tradicional, profissionais podem trabalhar com Direito Digital, proteção de dados, privacidade, compliance, operações jurídicas, gestão de contratos, produtos jurídicos, implantação de sistemas e consultoria relacionada ao uso de tecnologia.
Também existem empresas especializadas em desenvolver soluções para escritórios, departamentos jurídicos e instituições públicas.
Isso cria espaço para profissionais que entendam as necessidades jurídicas e consigam conversar com equipes de tecnologia, produto, segurança da informação e gestão.
Não é necessário decidir por uma dessas áreas antes de entrar na faculdade. O contato com diferentes disciplinas e experiências ao longo da graduação ajuda a entender quais caminhos combinam melhor com seus interesses.
Como a graduação pode preparar o estudante para essa realidade?
A formação jurídica precisa acompanhar a maneira como o Direito é exercido.
Isso envolve estudar as bases da profissão, como Direito Civil, Constitucional, Penal, Trabalhista e Empresarial, mas também conhecer temas relacionados a Direito Digital e ter contato com ferramentas utilizadas na rotina profissional.
Na Fundação Santo André, por exemplo, a matriz do curso de Direito inclui Direito Digital, além de disciplinas tradicionais da formação jurídica. O curso também conta com o Núcleo de Prática Jurídica, o NPJ, para aproximar os estudantes de atividades relacionadas à atuação profissional.
Em 2026, a FSA também passou a contar com simuladores dos sistemas E-PROC e PJe para atividades acadêmicas. Os estudantes podem utilizar ambientes de simulação relacionados às áreas cível e trabalhista e conhecer procedimentos que fazem parte da rotina processual eletrônica.
Esse contato ainda durante a faculdade ajuda o estudante a conectar os conteúdos estudados em sala com situações encontradas no trabalho jurídico.
Tecnologia muda as ferramentas, mas o Direito continua exigindo formação
Quem começar uma graduação em Direito agora provavelmente encontrará, ao longo da carreira, ferramentas que ainda nem existem.
Por isso, preparar-se para o mercado jurídico não depende de decorar o funcionamento de um software específico.
O mais importante é construir uma boa formação jurídica, aprender a pesquisar, interpretar informações, escrever com clareza, lidar de forma responsável com dados e desenvolver disposição para aprender novas ferramentas conforme elas passam a fazer parte da profissão.
Legaltechs, inteligência artificial, processos eletrônicos e automação devem continuar mudando algumas tarefas. Para quem está escolhendo uma graduação, conhecer esse cenário desde o início ajuda a entender melhor como o Direito funciona fora dos livros.
Conheça o curso de Direito da FSA
Se o Direito está entre os cursos que você considera para a faculdade, conhecer a estrutura da graduação também ajuda na escolha.
O curso de Direito da Fundação Santo André é presencial, tem duração de dez semestres e reúne formação teórica, atividades práticas, Núcleo de Prática Jurídica e conteúdos como Direito Digital.
Você também pode consultar a graduação em Direito e as formas de ingresso da FSA em www.fsa.br/graduacao.