Acrilamida nos alimentos: o que é, quais os riscos e como reduzir a exposição no dia a dia
Antes de tudo, é importante lembrar que alimentos muito dourados ou queimados podem conter uma substância que passa despercebida pela maioria das pessoas. Ela não aparece no rótulo, não é adicionada durante a fabricação e nem altera o sabor dos alimentos, mas vem sendo estudada há anos por seus possíveis efeitos à saúde. Trata-se da acrilamida.
Presente em alimentos bastante consumidos, como batatas fritas, torradas, biscoitos e café, a substância desperta o interesse da comunidade científica justamente por estar relacionada ao modo de preparo dos alimentos. Mas isso significa que esses alimentos fazem mal? É preciso deixar de consumi-los?
Segundo a Profa. Me. Renata Ruggier de Mattos, professora do curso de Bacharelado em Biomedicina do Centro Universitário Fundação Santo André (FSA), a resposta exige equilíbrio e informação baseada em evidências científicas.
O que é a acrilamida?
A acrilamida é um composto químico que pode ser formado naturalmente durante o preparo de determinados alimentos ricos em carboidratos quando eles são submetidos a altas temperaturas, geralmente acima de 120°C.
Ela não é um ingrediente adicionado aos alimentos. Sua formação acontece principalmente em processos como fritura, assamento e torrefação.
“A acrilamida surge principalmente quando alimentos ricos em carboidratos são preparados em temperaturas superiores a aproximadamente 120°C, especialmente em processos como fritura, assamento e torrefação. Quanto mais escuro ou queimado estiver o alimento, maior tende a ser sua concentração”, explica a professora.
Como a acrilamida é formada nos alimentos?
A formação da acrilamida ocorre durante a chamada Reação de Maillard, responsável pela coloração dourada, pelo aroma e pelo sabor característicos de diversos alimentos preparados em altas temperaturas.
Nesse processo, o aminoácido asparagina reage com açúcares redutores naturalmente presentes nos alimentos. Quando essa reação acontece em ambiente com baixa umidade e temperatura elevada, pode ocorrer a formação da acrilamida.
A quantidade produzida varia conforme diferentes fatores, como:
- temperatura utilizada;
- tempo de preparo;
- método de cocção;
- composição do alimento;
- variedade da matéria-prima.
Por isso, dois alimentos semelhantes podem apresentar concentrações diferentes da substância.
Quais alimentos podem conter acrilamida?
A acrilamida pode estar presente principalmente em alimentos preparados em altas temperaturas. Entre os exemplos mais conhecidos estão:
- batatas fritas;
- batatas chips;
- torradas muito douradas;
- pães excessivamente tostados;
- biscoitos e bolachas;
- cereais matinais;
- salgadinhos industrializados;
- café torrado;
- diversos produtos de panificação.
Isso não significa que esses alimentos precisem ser excluídos da alimentação. O mais importante é observar a frequência de consumo e a forma de preparo.
Em contrapartida, alimentos preparados em água, como arroz, massas, legumes cozidos e verduras, praticamente não desenvolvem acrilamida, já que a temperatura da água permanece abaixo do limite necessário para sua formação.
Acrilamida faz mal à saúde?
Essa é uma das perguntas mais pesquisadas sobre o tema.
A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) classifica a acrilamida como “provavelmente carcinogênica para humanos” (Grupo 2A). Essa classificação é baseada principalmente em estudos experimentais realizados com animais e em evidências laboratoriais.
Isso não significa que consumir alimentos com acrilamida provoque câncer de forma direta ou inevitável em seres humanos.
Na prática, a classificação indica que existem evidências suficientes em modelos experimentais e evidências limitadas em humanos, o que justifica a recomendação de reduzir a exposição sempre que possível.
“A ciência continua investigando os efeitos da exposição prolongada à acrilamida. Embora as evidências em humanos ainda sejam objeto de pesquisa, adotar hábitos alimentares mais saudáveis é sempre a melhor estratégia”, afirma Renata Ruggier de Mattos.
Após a ingestão, parte da acrilamida é transformada no fígado em glicidamida, composto que, em condições experimentais, pode interagir com o material genético das células.
Além disso, pesquisas investigam sua relação com mecanismos como:
- estresse oxidativo;
- processos inflamatórios;
- alterações no sistema nervoso;
- possíveis efeitos sobre a saúde reprodutiva.
Embora ainda existam perguntas em aberto, especialistas concordam que reduzir a exposição é uma medida preventiva recomendável.
Como reduzir a acrilamida nos alimentos
A boa notícia é que pequenas mudanças na rotina podem diminuir significativamente a formação da substância.
Entre as principais recomendações estão:
- evitar que alimentos fiquem excessivamente queimados;
- preferir alimentos dourados em vez de muito escurecidos;
- variar os métodos de preparo, incluindo cozimento e preparo no vapor;
- aumentar o consumo de frutas, verduras e legumes;
- reduzir o consumo frequente de alimentos ultraprocessados;
- evitar reutilizar óleo de fritura por longos períodos.
“Uma alimentação equilibrada continua sendo a principal aliada da prevenção. Quanto maior a variedade de alimentos naturais consumidos, menor tende a ser a exposição a compostos potencialmente prejudiciais.”
Além disso, alimentos ricos em antioxidantes naturais ajudam a manter o equilíbrio dos mecanismos de defesa do organismo contra o estresse oxidativo. Embora eles não neutralizem a acrilamida, fazem parte de um padrão alimentar associado à redução do risco de diversas doenças crônicas.
O papel da Biomedicina na pesquisa sobre alimentação
O estudo da acrilamida mostra como a alimentação vai muito além da análise de calorias, proteínas ou vitaminas.
Segundo a professora, a Biomedicina tem contribuído para compreender como diferentes compostos presentes nos alimentos interagem com o organismo humano.
A área desenvolve pesquisas em toxicologia alimentar, metabolismo, biomarcadores de exposição e prevenção de doenças relacionadas aos hábitos alimentares.
“A ciência da alimentação evolui constantemente. Hoje sabemos que não basta avaliar apenas nutrientes. Também precisamos compreender como determinados compostos formados durante o preparo dos alimentos podem influenciar nossa saúde.”
Esses estudos ajudam a desenvolver recomendações cada vez mais precisas para orientar profissionais de saúde e a população sobre escolhas alimentares mais seguras.
Informação também é prevenção
Conhecer a acrilamida não significa deixar de consumir alimentos como pão, café ou batata frita. O objetivo é compreender que a forma de preparo influencia diretamente a quantidade dessa substância presente nos alimentos e que pequenas mudanças podem contribuir para uma alimentação mais equilibrada.
“Nenhum alimento isoladamente determina o aparecimento de uma doença. O que realmente faz diferença é o padrão alimentar adotado ao longo da vida. Pequenas mudanças na rotina podem trazer benefícios importantes para a saúde.”
Priorizar alimentos minimamente processados, variar os métodos de preparo e evitar o excesso de alimentos muito tostados ou queimados são medidas simples que ajudam a reduzir a exposição à acrilamida sem abrir mão de uma alimentação prazerosa.
A informação científica, quando traduzida de forma acessível, permite que cada pessoa faça escolhas mais conscientes e fortaleça hábitos que contribuem para a promoção da saúde ao longo da vida.
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