Por que alguns mosquitos transmitem doenças e outros não?
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Você está tentando dormir quando escuta aquele zumbido perto do ouvido. A primeira reação pode ser pensar em dengue, especialmente porque o Aedes aegypti se tornou um dos mosquitos mais conhecidos pelos brasileiros.
Mas encontrar um mosquito dentro de casa não significa automaticamente estar diante de um transmissor de dengue.
Existem diferentes gêneros e espécies de mosquitos, com comportamentos e características biológicas próprias. Além disso, para que uma doença seja transmitida, não basta que o inseto pique uma pessoa infectada. O vírus, parasita ou outro agente precisa conseguir sobreviver dentro daquele mosquito, superar barreiras do organismo do inseto e chegar ao local necessário para ser transmitido em uma nova picada.
É essa combinação entre mosquito, agente infeccioso, ambiente e hospedeiro que ajuda a explicar por que algumas espécies funcionam como vetores de determinadas doenças e outras não. A Organização Mundial da Saúde destaca que diferentes mosquitos estão associados a diferentes agentes: Aedes, Anopheles e Culex, por exemplo, podem participar da transmissão de doenças distintas.
O assunto ganha atenção especial em 20 de agosto, Dia Mundial do Mosquito, data dedicada à conscientização sobre doenças transmitidas por esses insetos.
Resposta rápida: por que nem todo mosquito transmite doenças?
Porque ser picado por um mosquito e transmitir uma doença são processos diferentes.
Para funcionar como vetor, determinada espécie precisa ser biologicamente compatível com o vírus, bactéria ou parasita. O agente infeccioso precisa conseguir entrar no organismo do mosquito, sobreviver, multiplicar-se ou completar parte de seu desenvolvimento e alcançar estruturas que permitam a transmissão para outra pessoa.
No caso da dengue, por exemplo, depois que uma fêmea de Aedes aegypti se alimenta do sangue de uma pessoa infectada, o vírus pode se multiplicar no intestino do mosquito e posteriormente alcançar outros tecidos, incluindo as glândulas salivares. A partir daí, o mosquito infectado pode transmitir o vírus em novas picadas.
Outras espécies podem entrar em contato com o mesmo agente e não oferecer as condições necessárias para que esse processo aconteça.
O mosquito causa a doença?
Não. Essa diferença é importante.
O mosquito funciona como vetor, ou seja, participa do transporte e da transmissão de determinado agente infeccioso.
A dengue, por exemplo, é causada pelo vírus da dengue. No ciclo urbano mais comum, uma fêmea de Aedes aegypti infectada transmite o vírus durante a picada.
Na malária, a lógica envolve outro mosquito e outro tipo de agente. A doença é causada por parasitas do gênero Plasmodium e transmitida por determinados mosquitos do gênero Anopheles. A Organização Mundial da Saúde informa que existem centenas de espécies de Anopheles, mas apenas parte delas consegue atuar como vetor da malária.
Isso já mostra que não existe um único “mosquito das doenças”.
Existem diferentes relações entre espécies de mosquitos e agentes infecciosos.
O que faz um mosquito ser um bom transmissor?
Alguns fatores precisam aparecer juntos.
Compatibilidade com o agente infeccioso
O primeiro é biológico.
Não é qualquer vírus ou parasita que consegue se desenvolver dentro de qualquer mosquito. O agente precisa superar as defesas e barreiras existentes no organismo daquele inseto.
Na dengue, por exemplo, o vírus ingerido durante a alimentação precisa infectar tecidos do mosquito e alcançar as glândulas salivares antes de poder ser transmitido em outra picada.
Essa capacidade de uma espécie adquirir, manter e transmitir determinado agente está relacionada ao que os pesquisadores estudam como competência vetorial.
Preferência por determinados hospedeiros
O comportamento do mosquito também interfere.
Algumas espécies têm maior contato com humanos. Outras se alimentam preferencialmente em diferentes animais ou circulam em ambientes bastante específicos.
O Aedes aegypti se adaptou muito bem aos ambientes urbanos. O Ministério da Saúde o descreve como um mosquito doméstico, encontrado dentro ou ao redor de casas e de outros locais frequentados por pessoas, como escolas, estabelecimentos comerciais e igrejas.
Essa proximidade aumenta as oportunidades de contato entre o vetor e seres humanos.
Frequência das picadas
Também é necessário que o mosquito entre em contato com hospedeiros suficientes para que a transmissão aconteça.
No Aedes aegypti, as fêmeas utilizam sangue para a maturação dos ovos e possuem atividade preferencial durante o dia, embora também possam picar à noite quando encontram oportunidade.
Por isso, prevenir as picadas e reduzir a quantidade de mosquitos próximos às pessoas são partes importantes do controle das doenças transmitidas por vetores.
Condições ambientais
Temperatura, disponibilidade de água, umidade, urbanização e outros fatores ambientais também interferem na presença e na distribuição dos mosquitos.
No caso do Aedes aegypti, o Ministério da Saúde destaca que temperatura e pluviosidade influenciam sua infestação.
A OMS também aponta que alterações climáticas, urbanização, circulação internacional de pessoas e mercadorias e mudanças na distribuição dos vetores podem influenciar a ocorrência de doenças transmitidas por esses organismos.
Aedes aegypti transmite quais doenças?
No Brasil, o Aedes aegypti é o principal vetor urbano dos vírus que causam:
- dengue;
- chikungunya;
- Zika.
O mosquito também é capaz de transmitir o vírus da febre amarela no ciclo urbano. Há, porém, uma informação importante: o Brasil não registra febre amarela urbana desde 1942. Atualmente, os casos registrados no país estão relacionados ao ciclo silvestre, no qual outros gêneros de mosquitos, como Haemagogus e Sabethes, participam da transmissão.
Isso mostra novamente por que falar apenas em “mosquito transmissor” pode simplificar demais o assunto. Até uma mesma doença pode envolver vetores diferentes dependendo do ciclo de transmissão.
E o mosquito comum de casa?
Nem todo mosquito encontrado dentro de casa é Aedes aegypti.
O chamado pernilongo doméstico costuma estar associado a espécies do gênero Culex, que possuem comportamento e características diferentes do Aedes.
Em outras regiões do mundo, algumas espécies de Culex podem participar da transmissão de agentes relacionados à febre do Nilo Ocidental, encefalite japonesa e filariose linfática, por exemplo.
Isso não significa que qualquer Culex encontrado em casa esteja infectado ou que transmita todas essas doenças. Novamente, a transmissão depende da espécie, do agente infeccioso, de sua circulação naquela região e de diferentes condições biológicas e ambientais.
Por isso, a identificação do mosquito é apenas uma parte da análise realizada por pesquisadores e equipes de vigilância.
Por que só as fêmeas costumam aparecer quando falamos de transmissão?
No caso de importantes mosquitos vetores, como o Aedes aegypti, são as fêmeas que realizam a alimentação sanguínea necessária à maturação dos ovos.
É durante essa alimentação que pode acontecer o contato entre o mosquito e um agente presente no sangue de um hospedeiro.
Depois de adquirir o agente, ainda existe um processo dentro do mosquito antes que ele possa transmiti-lo.
No caso do vírus da dengue, por exemplo, o vírus precisa se multiplicar e alcançar as glândulas salivares. Somente então uma nova picada pode participar da transmissão para outra pessoa.
Por isso, o mosquito não funciona simplesmente como uma seringa que retira o vírus de uma pessoa e o injeta imediatamente em outra.
Existe uma interação biológica muito mais complexa acontecendo.
Como um mosquito infectado transmite o vírus?
Quando um mosquito competente para determinado agente faz o repasto sanguíneo em uma pessoa infectada, ele pode ingerir o vírus ou parasita junto com o sangue.
Depois disso, o agente precisa sobreviver dentro do inseto.
Se conseguir completar as etapas necessárias e alcançar as glândulas salivares, pode ser liberado junto à saliva durante uma nova alimentação.
Essa saliva possui funções importantes para o mosquito durante a picada e cria a oportunidade para que o agente infeccioso entre no organismo do novo hospedeiro.
É essa sequência que transforma um mosquito biologicamente compatível em parte de uma cadeia de transmissão.
Clima e chuvas podem aumentar a quantidade de mosquitos?
Podem influenciar, mas a relação não se resume a “choveu, aumentou a dengue”.
Temperatura, chuva, disponibilidade de criadouros, armazenamento de água, características das cidades, comportamento da população e presença do vírus precisam ser considerados em conjunto.
Para o Aedes aegypti, recipientes capazes de acumular água podem criar locais adequados para o desenvolvimento das formas imaturas do mosquito. Por isso, o Ministério da Saúde recomenda ações permanentes de eliminação ou proteção de possíveis criadouros.
Essa relação entre clima, cidades e vetores já apareceu em outro conteúdo do blog da FSA. No artigo Super El Niño pode afetar o clima no Grande ABC, o Prof. Dr. José Luiz Laporta, coordenador adjunto de Ciências Biológicas, explica como calor e água acumulada podem favorecer o Aedes aegypti e aumentar os riscos associados a arboviroses.
O tema mostra como saúde e meio ambiente frequentemente precisam ser estudados juntos.
Se o mosquito não nasce necessariamente infectado, de onde vem o vírus?
No principal ciclo urbano da dengue, o mosquito adquire o vírus ao picar uma pessoa que possui o vírus circulando no sangue.
Depois de um período de desenvolvimento do agente dentro do mosquito, ele pode se tornar capaz de infectar outras pessoas.
Isso cria uma cadeia:
pessoa infectada → mosquito → outra pessoa
Por isso, quando existe muita circulação viral e grande presença do vetor em uma mesma região, aumentam as oportunidades de manutenção da transmissão.
É também por esse motivo que controlar o mosquito continua sendo uma medida importante de saúde pública.
Como reduzir o risco de doenças transmitidas pelo Aedes aegypti?
Uma das principais estratégias é impedir a proliferação do mosquito.
O Ministério da Saúde recomenda eliminar recipientes capazes de acumular água ou mantê-los adequadamente fechados, reduzindo os locais disponíveis para postura de ovos e desenvolvimento das larvas.
Também podem ser utilizadas medidas de proteção individual contra picadas, como roupas que cubram áreas do corpo, telas em portas e janelas e repelentes registrados, seguindo as orientações de uso do produto.
Essas medidas precisam ser mantidas ao longo do ano, e não apenas quando os casos de dengue aumentam.
O que o Dia Mundial do Mosquito tem a ver com a malária?
O dia 20 de agosto faz referência a uma descoberta realizada em 1897 pelo médico Ronald Ross, cujos estudos ajudaram a demonstrar a participação dos mosquitos Anopheles na transmissão da malária.
Mais de um século depois, a data continua sendo utilizada para chamar atenção para doenças transmitidas por mosquitos e para a importância do conhecimento científico na prevenção e no controle desses vetores.
A própria história da data é um bom exemplo de como uma descoberta em Biologia pode modificar estratégias de saúde pública. Entender que determinado organismo participa da transmissão de uma doença permite desenvolver formas mais específicas de prevenção, vigilância e controle.
Estudar mosquitos envolve muito mais do que observar insetos
Para quem imagina que Ciências Biológicas se resume ao estudo de animais e plantas, os mosquitos mostram como a área pode se conectar diretamente à saúde humana.
Pesquisadores podem investigar quais espécies estão presentes em determinada região, como os mosquitos se comportam, quais agentes conseguem transmitir, como mudanças ambientais afetam suas populações e quais estratégias podem reduzir a transmissão de doenças.
Esse trabalho combina conhecimentos de zoologia, genética, microbiologia, ecologia, epidemiologia e saúde pública.
A Biomedicina também participa desse cenário por outras perspectivas, incluindo microbiologia, imunologia, diagnóstico laboratorial e estudo das doenças infecciosas.
Compreender por que um mosquito transmite dengue, enquanto outro está associado à malária e muitas outras espécies não participam dessas cadeias, é um exemplo de como a ciência investiga relações que envolvem diferentes organismos e o ambiente onde eles vivem.
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