6 fatores que prejudicam a saúde: conheça o “sexteto sinistro”
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Nos quadrinhos do Homem-Aranha, o Sexteto Sinistro reúne alguns dos adversários mais conhecidos do personagem. Na saúde, não existe oficialmente um grupo com esse nome, mas a referência ajuda a explicar como diferentes fatores do cotidiano podem se combinar e aumentar o risco de problemas ao longo da vida.
Alimentação inadequada, falta de atividade física, tabagismo e uso prejudicial de álcool estão entre os principais fatores comportamentais relacionados às doenças crônicas não transmissíveis, segundo a Organização Mundial da Saúde. Sono insuficiente e estresse persistente também podem afetar a saúde física e mental.
É a partir dessa combinação que podemos pensar, de maneira didática, em um “sexteto sinistro da saúde”.
Para a Profa. Dra. Mariana Cristina Cabral Silva, professora e coordenadora do curso de Biomedicina do Centro Universitário Fundação Santo André, conhecer os fatores de risco ajuda a compreender como escolhas, condições de vida e acompanhamento de saúde podem interferir no desenvolvimento de doenças.
“A maioria das doenças crônicas não surge de forma repentina. Elas são resultado de anos de exposição a fatores de risco que, muitas vezes, podem ser prevenidos por meio de mudanças simples no estilo de vida.”
Resposta rápida: quais hábitos podem prejudicar a saúde?
Entre os fatores modificáveis mais relacionados à saúde estão alimentação inadequada, inatividade física, tabagismo e consumo de álcool. A OMS destaca esses quatro comportamentos entre os principais fatores associados às doenças crônicas, como doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e doenças respiratórias.
Neste artigo, acrescentamos ainda sono inadequado e estresse persistente, que também interferem no funcionamento do organismo e no bem-estar.
Isso não significa que esses seis elementos expliquem sozinhos o aparecimento de uma doença.
Doenças crônicas são multifatoriais e podem envolver genética, idade, condições ambientais, fatores sociais, acesso à saúde e outros aspectos além dos comportamentos individuais.
1. Alimentação inadequada
Uma alimentação saudável não depende de um único alimento.
O padrão alimentar como um todo é mais importante.
A OMS destaca adequação, equilíbrio, moderação e diversidade entre os princípios de uma alimentação saudável e recomenda uma base formada por alimentos in natura ou minimamente processados, com atenção ao consumo de açúcares livres, sódio e determinados tipos de gordura.
No Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda que alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias sejam a base da alimentação e orienta evitar produtos ultraprocessados, cujo consumo frequente está relacionado a padrões nutricionais menos favoráveis e maior risco de doenças crônicas.
Isso não significa que consumir ocasionalmente um chocolate, salgadinho ou sobremesa determine a saúde de alguém.
O problema aparece quando produtos com muito açúcar, sódio, gorduras e alta densidade energética passam a ocupar uma parcela grande e frequente da alimentação.
“Uma alimentação equilibrada continua sendo um dos pilares da prevenção em saúde”, afirma a Profa. Mariana.
Você pode ampliar essa reflexão com o nosso artigo sobre chocolate e saúde, em que explicamos por que um alimento não deve ser classificado isoladamente como “bom” ou “ruim” sem considerar composição, quantidade e padrão alimentar.
2. Pouca atividade física
Passar grande parte do dia sentado e movimentar-se pouco também pode afetar a saúde.
A atividade física está associada à saúde cardiovascular, muscular, óssea e metabólica, além de benefícios relacionados ao bem-estar e à saúde mental.
Para adultos de 18 a 64 anos, a OMS recomenda pelo menos 150 minutos de atividade física moderada por semana, ou 75 minutos de atividade vigorosa, podendo também haver uma combinação das duas intensidades.
Como nosso blog também conversa com estudantes que ainda têm 17 anos, há uma diferença importante: para crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, a recomendação é uma média de 60 minutos por dia de atividade física moderada a vigorosa ao longo da semana.
E atividade física não significa necessariamente academia.
Caminhar, pedalar, dançar, praticar esportes e outras formas de movimentar o corpo também entram nessa conta.
Para quem atualmente se movimenta pouco, começar com quantidades menores já é preferível a permanecer completamente inativo. A própria OMS ressalta que alguma atividade é melhor do que nenhuma.
3. Tabagismo
Aqui não há muita margem para relativização.
O tabagismo é uma doença crônica relacionada à dependência da nicotina e está associado a diversos tipos de câncer, doenças cardiovasculares e respiratórias, entre outros problemas de saúde. O Instituto Nacional de Câncer também destaca os riscos da exposição passiva à fumaça do tabaco.
No Brasil, o INCA estima que milhares de mortes anuais estejam relacionadas ao tabagismo, incluindo casos associados a doenças cardíacas, doença pulmonar obstrutiva crônica, câncer de pulmão, outros cânceres e acidente vascular cerebral.
Isso também inclui uma questão especialmente relevante para adolescentes e adultos jovens: produtos diferentes do cigarro tradicional não devem ser interpretados automaticamente como alternativas inofensivas.
A dependência de nicotina e os riscos associados aos diferentes produtos do tabaco continuam sendo temas de saúde pública.
4. Consumo de bebidas alcoólicas
A ideia de que pequenas quantidades de álcool necessariamente fazem bem à saúde vem sendo revista à medida que as evidências avançam.
A OMS afirma atualmente que não existe consumo de álcool totalmente livre de risco. O risco varia conforme quantidade, frequência, características individuais e padrão de consumo, mas começa mesmo em níveis baixos.
O álcool está causalmente relacionado a mais de 200 doenças, lesões e outras condições de saúde e é um agente carcinogênico reconhecido. Seu consumo está associado, entre outros problemas, a doenças hepáticas, cardiovasculares e diferentes tipos de câncer.
Por isso, a fala da Profa. Mariana funciona bem aqui:
“Quanto menor o consumo de álcool, menores tendem a ser os riscos para a saúde.”
Isso não exige tratar cada situação social em que alguém consome uma bebida como uma emergência médica.
Significa apenas evitar a ideia de que beber é uma estratégia de promoção da saúde.
5. Sono inadequado
Dormir não é simplesmente um período em que o organismo “desliga”.
O sono participa de processos relacionados à memória, aprendizagem, regulação metabólica, funcionamento cardiovascular e diferentes sistemas do organismo.
Quando a privação de sono se torna frequente, podem aparecer dificuldades de concentração, redução do desempenho durante o dia e maior associação com problemas como obesidade, pressão alta e doenças cardiovasculares.
Isso também significa que uma noite ruim ocasional não deve ser tratada como se produzisse automaticamente uma doença.
O que merece maior atenção são padrões persistentes de sono insuficiente ou de baixa qualidade.
Para estudantes, esse tema é especialmente próximo.
A rotina pode reunir aulas, trabalho, deslocamento, provas, uso de telas e compromissos pessoais, fazendo com que o sono seja a primeira parte do dia a ser reduzida.
No artigo “Como o sono ajuda a memória e o aprendizado?”, já explicamos com mais detalhes como o descanso participa da consolidação da memória e do desempenho acadêmico.
6. Estresse persistente
Estresse não é exatamente um hábito e também não é sempre prejudicial.
A OMS define o estresse como uma resposta humana natural diante de situações difíceis ou ameaçadoras. Em determinadas situações, ele ajuda a mobilizar atenção e recursos para enfrentar um problema.
A preocupação aparece quando essa sensação se torna intensa ou persistente e começa a interferir no cotidiano.
Estresse excessivo pode provocar dificuldade para relaxar, problemas de sono, alterações de apetite, irritabilidade e dificuldade de concentração. Também pode piorar condições de saúde preexistentes e contribuir para comportamentos como maior consumo de álcool ou tabaco.
Por isso, é preferível falar em estresse persistente em vez de simplesmente colocar “estresse” entre os vilões.
Sentir-se estressado antes de uma prova, entrevista ou apresentação é diferente de viver durante longos períodos sem recuperação adequada.
Por que esses fatores costumam aparecer juntos?
Porque nossos comportamentos e condições de vida não funcionam em compartimentos separados.
Uma rotina com poucas horas de sono pode tornar mais difícil encontrar disposição para atividade física. Um período de estresse intenso pode modificar alimentação ou consumo de álcool. Jornadas de estudo e trabalho muito longas podem reduzir o tempo disponível para descanso e lazer.
A Profa. Mariana resume essa relação:
“Uma pessoa sedentária pode também alimentar-se mal, dormir pouco e apresentar altos níveis de estresse. Esse conjunto potencializa os danos ao organismo e acelera o aparecimento de doenças.”
O ponto central é observar que os fatores podem se somar e interagir, mas sem concluir que determinada combinação levará inevitavelmente a uma doença.
Risco não é destino.
Saúde depende apenas das escolhas de cada pessoa?
Não.
Essa é uma ressalva importante quando falamos em “hábitos saudáveis”.
Fazer atividade física, dormir adequadamente e ter acesso a uma alimentação diversificada também depende de fatores como renda, jornada de trabalho, segurança do bairro, acesso a espaços de lazer, condições de moradia, disponibilidade de alimentos e assistência em saúde.
Doenças crônicas combinam fatores comportamentais, ambientais, fisiológicos, genéticos e sociais.
Por isso, prevenção em saúde envolve tanto escolhas individuais quanto políticas públicas e condições que permitam às pessoas colocar essas escolhas em prática.
É preciso mudar tudo de uma vez?
Não.
Estabelecer seis mudanças radicais ao mesmo tempo pode produzir uma rotina difícil de manter.
Uma estratégia mais realista é identificar o que está mais distante de uma condição adequada e começar por objetivos possíveis.
Para uma pessoa, pode ser caminhar algumas vezes por semana. Para outra, organizar um horário mais regular para dormir. Alguém que fuma pode precisar de acompanhamento para tratar a dependência de nicotina. Quem vive com estresse persistente ou sofrimento emocional pode necessitar de apoio profissional.
A Profa. Mariana destaca justamente a continuidade:
“A prevenção é construída diariamente. Pequenas mudanças, mantidas ao longo do tempo, podem produzir grandes benefícios para a saúde.”
Isso também evita uma ideia frequente em conteúdos sobre saúde: a de que alguém precisa seguir uma rotina perfeita para começar a se cuidar.
Consultas e exames também fazem parte da prevenção?
Sim, mas a necessidade de cada acompanhamento depende da idade, histórico de saúde, sintomas e fatores de risco.
Prevenção não significa realizar indiscriminadamente todos os exames disponíveis.
Avaliações de saúde permitem identificar fatores como pressão arterial elevada, alterações de glicemia e colesterol e outras condições que podem não produzir sintomas iniciais. A OMS destaca justamente pressão alta, glicose elevada, alterações nos lipídios e excesso de peso entre fatores metabólicos relacionados às doenças crônicas.
A frequência e o tipo de avaliação devem ser definidos de acordo com a situação de cada pessoa e a orientação dos profissionais responsáveis.
O que a Biomedicina tem a ver com prevenção?
Prevenção também depende de compreender o que acontece no organismo antes, durante e depois do desenvolvimento de uma doença.
É nesse contexto que aparecem áreas como análises laboratoriais, bioquímica, fisiologia, imunologia, genética e epidemiologia.
Exames laboratoriais podem ajudar a identificar alterações metabólicas, acompanhar condições já diagnosticadas e fornecer informações utilizadas por equipes de saúde para orientar condutas. A pesquisa biomédica também investiga como alimentação, atividade física, tabagismo, álcool e outros fatores influenciam mecanismos celulares e metabólicos.
Na Fundação Santo André, essa formação prática também aparece em estruturas como o LEAC, Laboratório Escola de Análises Clínicas, inaugurado em 2026 para apoiar atividades de ensino, pesquisa e extensão em áreas como Bioquímica, Hematologia, Imunologia, Microbiologia, Parasitologia e Urinálise.
Para a Profa. Mariana:
“Conhecer como o organismo responde aos hábitos de vida permite desenvolver estratégias mais eficazes para prevenir doenças e promover qualidade de vida. A informação é uma das ferramentas mais importantes para que as pessoas façam escolhas mais saudáveis.”