Por que ocorrem os terremotos? Entenda os fenômenos que movimentam a Terra
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O chão parece ser uma das referências mais estáveis que temos. Construímos cidades, estradas e casas sobre ele e dificilmente percebemos que, em escala geológica, a superfície terrestre está em movimento o tempo todo.
Os terremotos são uma das manifestações mais evidentes dessa dinâmica.
Eles acontecem quando ocorre uma ruptura ou deslocamento repentino ao longo de uma falha geológica, liberando energia que se propaga pelo interior da Terra na forma de ondas sísmicas. Grande parte desses eventos está relacionada ao movimento das placas tectônicas, embora tremores também possam ocorrer dentro das próprias placas.
Para o Prof. Dr. José Luiz Laporta, coordenador adjunto do curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário Fundação Santo André, compreender os terremotos é também uma maneira de conhecer melhor o funcionamento do planeta.
“A Terra é um planeta em permanente transformação. Sua camada mais externa é dividida em grandes placas que se movimentam lentamente. Quando essas placas acumulam tensão e liberam energia de forma repentina, ocorre o terremoto.”
Resposta rápida: por que ocorrem os terremotos?
Os terremotos ocorrem principalmente porque as placas tectônicas estão em movimento.
Em algumas regiões, blocos de rocha ficam presos ao longo de falhas por causa do atrito enquanto o movimento tectônico continua. A tensão vai se acumulando até que as rochas se deslocam repentinamente. A energia liberada se propaga como ondas sísmicas e provoca o tremor que pode ser sentido na superfície.
A maioria dos terremotos ocorre próxima aos limites entre placas, mas existem também os chamados sismos intraplaca, que acontecem longe dessas bordas. O Brasil registra principalmente esse segundo tipo.
A superfície da Terra realmente se movimenta?
Sim, embora seja difícil perceber isso durante a nossa rotina.
A parte rígida mais externa do planeta, chamada litosfera, está dividida em placas tectônicas. Elas se movimentam lentamente, geralmente na ordem de alguns centímetros por ano.
Abaixo da litosfera existe uma região do manto chamada astenosfera, cujas rochas, apesar de sólidas, podem se deformar lentamente ao longo de períodos geológicos.
Isso permite o deslocamento das placas.
Não se trata, portanto, de continentes simplesmente “flutuando sobre um oceano de lava”, uma imagem bastante comum em algumas representações simplificadas da estrutura terrestre.
Os movimentos das placas participam da formação e transformação dos continentes, oceanos, cadeias montanhosas e outras estruturas do planeta.
“É um processo extremamente lento na escala humana, mas fundamental para compreender a evolução geológica do planeta”, explica o Prof. Laporta.
Como acontece um terremoto?
Imagine dois blocos de rocha em contato.
O movimento tectônico exerce forças sobre eles, mas irregularidades e atrito podem impedir que o deslocamento aconteça de maneira contínua.
A tensão então se acumula.
Quando ela supera a resistência das rochas ou o atrito que mantém os blocos presos, ocorre um deslocamento repentino ao longo da falha. A energia acumulada é liberada e se espalha pela Terra na forma de ondas sísmicas.
É esse fenômeno que produz o tremor.
O Prof. Laporta utiliza uma comparação simples:
“É semelhante ao que acontece quando dobramos um galho seco. Durante algum tempo ele resiste, mas chega um momento em que quebra rapidamente, liberando toda a energia acumulada.”
A comparação ajuda a visualizar o acúmulo de tensão, embora as estruturas geológicas sejam muito maiores e os processos envolvidos sejam mais complexos.
O que são falhas geológicas?
Falhas são fraturas ou zonas de fratura nas rochas em que houve movimento relativo entre diferentes blocos.
Elas podem variar muito de tamanho e características.
Algumas estão diretamente associadas aos limites entre grandes placas tectônicas. Outras existem dentro das próprias placas.
É justamente por isso que terremotos não acontecem exclusivamente onde duas placas se encontram.
O Brasil está no interior da Placa Sul-Americana e possui falhas antigas que podem ser reativadas pelas tensões existentes na própria placa, produzindo terremotos intraplaca.
Hipocentro e epicentro são a mesma coisa?
Não.
O hipocentro, também chamado de foco, é o ponto no interior da Terra onde a ruptura começa.
O epicentro é o ponto da superfície localizado diretamente acima do hipocentro.
É comum vermos notícias dizendo que uma cidade estava próxima ao epicentro de determinado terremoto.
Isso indica sua posição em relação à projeção da origem do sismo na superfície, mas não significa que todos os efeitos sejam determinados apenas por essa distância.
Profundidade, características das rochas, tipo de solo, magnitude, construção das edificações e maneira como a falha se rompeu também influenciam os efeitos percebidos.
Por que alguns países têm tantos terremotos?
Porque estão localizados próximos a limites de placas tectônicas muito ativos.
Esses limites podem apresentar diferentes tipos de movimento.
Em algumas regiões, as placas se aproximam e uma pode mergulhar abaixo da outra. Em outras, elas se afastam. Há também limites em que duas placas deslizam lateralmente.
Por isso, países como Japão, Chile, Indonésia, México, Turquia e partes dos Estados Unidos apresentam atividade sísmica muito maior do que o Brasil.
Uma das regiões mais conhecidas é o Círculo de Fogo do Pacífico, faixa que contorna grande parte do Oceano Pacífico e reúne áreas de intensa atividade sísmica e vulcânica. O USGS a descreve como a zona de maior atividade sísmica e vulcânica do planeta.
Terremotos e vulcões estão sempre relacionados?
Não necessariamente.
Ambos têm forte relação com a dinâmica das placas tectônicas, o que explica por que áreas como o Círculo de Fogo apresentam grande quantidade tanto de terremotos quanto de vulcões.
Isso não significa, entretanto, que todo terremoto provoque uma erupção ou que um vulcão precise estar envolvido para ocorrer um sismo.
Muitos terremotos acontecem pelo deslocamento de falhas sem qualquer atividade vulcânica associada.
Existem ainda sismos relacionados diretamente ao movimento de magma em áreas vulcânicas, mas eles representam apenas uma parte da atividade sísmica observada no planeta.
E por que o Chile registra tantos terremotos?
O Chile está em uma região onde a Placa de Nazca mergulha sob a Placa Sul-Americana.
Esse processo, chamado de subducção, está relacionado tanto à formação da Cordilheira dos Andes quanto à intensa atividade sísmica existente na costa oeste da América do Sul.
O Brasil está na mesma grande placa continental, mas em uma posição bastante diferente.
Enquanto o Chile fica próximo ao limite ativo entre placas, nosso território está majoritariamente no interior da Placa Sul-Americana.
Essa diferença ajuda a explicar por que grandes terremotos são muito mais frequentes nos países andinos.
O Brasil tem terremotos?
Tem.
Dizer que “não existem terremotos no Brasil” é incorreto.
O que acontece é que o país possui uma atividade sísmica bem menor do que regiões localizadas nos limites entre placas tectônicas.
O Serviço Geológico do Brasil explica que os terremotos registrados aqui são principalmente intraplaca, associados a falhas e tensões existentes no interior da Placa Sul-Americana.
“Os sismos registrados no Brasil normalmente estão associados à acomodação de falhas geológicas antigas existentes no interior da placa tectônica. São fenômenos naturais e, na maioria das vezes, apresentam baixa intensidade”, explica o Prof. Laporta.
O Observatório Sismológico da Universidade de Brasília mantém inclusive uma base pública de eventos sísmicos naturais registrados no Brasil e em outras regiões.
Então o Brasil nunca pode ter um terremoto forte?
Não é possível afirmar que isso nunca ocorrerá.
A localização do Brasil torna menos provável a ocorrência de terremotos de grande magnitude quando comparado a regiões situadas em bordas ativas de placas, mas o país não é completamente livre de atividade sísmica.
O Serviço Geológico do Brasil registra eventos históricos de magnitude moderada no território nacional.
Por isso, a melhor maneira de explicar nossa situação não é dizer que “o Brasil não tem terremotos”, mas que apresenta menor atividade sísmica e menor frequência de grandes eventos.
Um terremoto de outro país pode ser sentido no Brasil?
Sim.
Ondas sísmicas podem percorrer grandes distâncias.
Em determinadas condições, terremotos fortes ocorridos na região dos Andes podem ser sentidos em partes do território brasileiro, especialmente em edifícios altos, onde pequenas oscilações podem se tornar mais perceptíveis.
O próprio Serviço Geológico do Brasil registra episódios em que ondas provenientes de terremotos de países vizinhos foram percebidas aqui.
Isso não significa que o epicentro esteja no Brasil, apenas que a energia liberada pelo terremoto se propagou até nosso território.
O que significa dizer que um terremoto teve magnitude 6 ou 7?
A magnitude é uma medida do tamanho do terremoto em sua origem.
Atualmente, para grandes eventos, uma das medidas mais utilizadas é a magnitude de momento, que considera propriedades físicas da ruptura da falha. Um terremoto possui uma determinada magnitude, independentemente do lugar de onde ele é observado.
A famosa expressão “Escala Richter” ainda aparece bastante em notícias e conversas, mas os métodos usados atualmente pelos centros sismológicos são mais variados e a magnitude de momento tornou-se uma referência especialmente importante para grandes terremotos.
Magnitude e intensidade são coisas diferentes?
Sim, e essa diferença é bastante importante.
A magnitude descreve o tamanho do terremoto na fonte.
Já a intensidade descreve como o tremor foi sentido e quais efeitos produziu em determinado local.
Isso significa que um mesmo terremoto possui uma magnitude, mas pode apresentar diferentes intensidades em cidades distintas.
Uma região próxima à ruptura e construída sobre um tipo de solo que amplifique o movimento pode experimentar efeitos mais fortes do que outra situada a maior distância.
A Escala Mercalli Modificada é um exemplo de escala utilizada para descrever intensidades a partir dos efeitos percebidos nas pessoas, objetos, construções e ambiente.
Por que dois terremotos de mesma magnitude podem causar danos tão diferentes?
Porque a magnitude não determina sozinha o impacto.
A profundidade do terremoto, a distância das cidades em relação à ruptura, o tipo de solo, a densidade populacional e a qualidade das construções interferem bastante nos danos.
Um terremoto forte em uma área pouco habitada pode produzir consequências humanas menores do que outro de magnitude inferior que atinja diretamente uma cidade vulnerável.
Esse é um ponto importante porque terremotos são fenômenos naturais, mas desastres dependem também das condições sociais, urbanas e estruturais existentes nas regiões atingidas.
É possível prever um terremoto?
Atualmente, não existe um método científico capaz de informar com precisão a data, o horário, o local e a magnitude de um grande terremoto antes que ele aconteça.
O USGS é bastante direto sobre isso: cientistas conseguem estimar probabilidades de ocorrência em determinadas regiões ao longo de períodos de tempo, mas não prever exatamente o próximo evento.
“Hoje conseguimos monitorar a atividade sísmica com grande precisão, mas prever a data e o horário de um terremoto ainda é um desafio para a ciência”, afirma o Prof. Laporta.
Isso também significa que mensagens nas redes sociais prometendo prever terremotos com base em comportamento de animais, posição dos planetas, nuvens ou outros sinais sem comprovação científica devem ser vistas com cautela.
Então como funcionam os alertas de terremoto?
Alerta precoce não é previsão.
Um sistema desse tipo detecta um terremoto depois que a ruptura já começou.
Como diferentes ondas sísmicas viajam em velocidades diferentes e sistemas de comunicação podem transmitir informações rapidamente, algumas regiões mais afastadas conseguem receber um aviso antes da chegada do movimento mais intenso.
Esse intervalo pode ser curto, às vezes de poucos segundos.
Ainda assim, alguns segundos podem permitir ações como reduzir a velocidade de trens, interromper determinadas operações industriais ou alertar pessoas para adotar procedimentos de proteção.
Nas áreas muito próximas ao epicentro, porém, pode não haver tempo suficiente para um aviso antes do tremor forte.
Animais conseguem prever terremotos?
Até hoje, não existe evidência científica confiável de que o comportamento de animais permita prever terremotos com a precisão necessária.
Relatos de animais agindo de maneira diferente antes de um evento existem há bastante tempo, mas transformá-los em um sistema de previsão exige demonstrar uma relação consistente, repetível e capaz de informar quando, onde e com qual magnitude ocorrerá o terremoto.
Isso não foi alcançado.
Da mesma maneira, outros sinais populares divulgados como previsores precisam ser avaliados com cuidado.
Ciência não se baseia apenas em algo ter acontecido antes de um terremoto uma vez, mas em demonstrar uma relação que possa ser testada e reproduzida.
Um terremoto pode causar tsunami?
Pode, mas nem todo terremoto causa tsunami.
Para gerar um tsunami significativo, geralmente é necessário que um terremoto submarino provoque um deslocamento importante do fundo oceânico e, consequentemente, de uma grande massa de água.
Outros fenômenos, como deslizamentos submarinos, também podem gerar tsunamis.
Por isso, terremoto e tsunami não são sinônimos.
A localização, profundidade e tipo de deslocamento da falha ajudam a determinar se um terremoto no oceano possui potencial para produzir esse tipo de onda.
Se não podemos impedir um terremoto, como reduzir seus impactos?
A principal estratégia é reduzir a vulnerabilidade das cidades e populações.
Em regiões com atividade sísmica elevada, isso envolve normas de construção capazes de considerar os movimentos do solo, planejamento urbano, monitoramento geológico, sistemas de alerta, rotas e protocolos de emergência e preparação da população.
“Países que convivem frequentemente com terremotos investem fortemente em engenharia, planejamento urbano e educação para reduzir o número de vítimas”, afirma Laporta.
Essa combinação mostra como o estudo de um terremoto ultrapassa a Geologia.
Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, políticas públicas, comunicação, saúde e gestão de emergências também participam da redução dos impactos.
O que os terremotos revelam sobre a história da Terra?
Muito do que sabemos sobre a estrutura e a dinâmica do planeta está relacionado ao estudo das ondas sísmicas.
A maneira como essas ondas se propagam, mudam de velocidade e atravessam diferentes materiais ajuda os cientistas a investigar regiões da Terra que não podemos acessar diretamente.
Além disso, a atividade tectônica participa de processos que, ao longo de milhões de anos, modificaram continentes, oceanos, montanhas e ambientes.
“Os terremotos mostram que a Terra é um ‘sistema vivo’, em constante transformação. Estudar esses fenômenos permite entender melhor a formação dos continentes, das montanhas, dos oceanos e até a evolução da vida ao longo da história geológica”, afirma o Prof. Laporta.
O que Ciências Biológicas têm a ver com terremotos?
À primeira vista, terremotos parecem um assunto exclusivamente ligado à Geologia.
Mas mudanças geológicas também interferem nos ambientes em que a vida se desenvolve.
Movimentos tectônicos participam da formação de montanhas, ilhas e bacias oceânicas, alteram paisagens, modificam habitats e influenciam processos que acontecem em escalas de milhões de anos.
Para estudantes de Ciências Biológicas, compreender a história geológica ajuda também a entender distribuição de espécies, evolução, ecossistemas e transformações ambientais.
É um bom exemplo de como diferentes áreas da ciência se encontram quando tentamos compreender o planeta.
“Quanto mais entendemos os processos naturais, maior é nossa capacidade de conviver com eles de forma segura. A ciência transforma curiosidade em conhecimento e conhecimento em prevenção”, conclui o Prof. Laporta.
Se temas como evolução da vida, ecologia, biodiversidade e funcionamento dos sistemas naturais despertam sua curiosidade, eles fazem parte de diferentes áreas estudadas em Ciências Biológicas. Conheça o curso e as demais graduações da Fundação Santo André.