Semaglutida e “canetas emagrecedoras”: como esses medicamentos agem no organismo?
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A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” fez nomes como semaglutida e tirzepatida aparecerem em conversas, redes sociais e buscas na internet com uma frequência que poucos medicamentos alcançam.
O aumento da atenção, porém, também trouxe confusão. Semaglutida não é sinônimo de emagrecimento, nem todas as chamadas canetas funcionam exatamente da mesma maneira, e o fato de um medicamento contribuir para a perda de peso não significa que seu uso seja indicado para qualquer pessoa.
No Brasil, existem medicamentos com semaglutida aprovados para diferentes finalidades. O Wegovy, por exemplo, possui indicação para controle do peso em situações específicas, associado a alimentação com redução calórica e atividade física. Já produtos com semaglutida registrados para diabetes tipo 2 possuem outra indicação. Em julho de 2026, a Anvisa inclusive aprovou cinco novos medicamentos injetáveis com semaglutida destinados ao tratamento de adultos com diabetes tipo 2, e não ao emagrecimento.
Para a Profa. Me. Kelly Cristina Batista de Souto Queiroz, professora do curso de Biomedicina do Centro Universitário Fundação Santo André, compreender essas diferenças é importante para evitar a banalização do tratamento.
“A semaglutida atua em mecanismos relacionados à saciedade, ao apetite e ao controle da glicemia. É um medicamento que pode trazer benefícios importantes quando corretamente indicado, mas seu uso precisa ser acompanhado por profissional qualificado.”
Resposta rápida: o que a semaglutida faz no organismo?
A semaglutida é um medicamento que atua como agonista do receptor de GLP-1, imitando a ação de um hormônio que participa da regulação da glicose e do apetite.
Sua ação pode aumentar a sensação de saciedade, diminuir a fome e reduzir a ingestão de alimentos. Também participa da regulação da glicemia. Esses mecanismos ajudam a explicar sua utilização em medicamentos destinados ao diabetes tipo 2 e, em apresentações e condições específicas, ao controle do peso.
Ela não funciona simplesmente “queimando gordura”.
“É importante entender que a caneta não simplesmente ‘queima gordura’. Existe uma atuação complexa sobre mecanismos metabólicos e de regulação da alimentação”, explica a Profa. Kelly.
O que é GLP-1?
GLP-1 é a sigla para glucagon-like peptide-1, ou peptídeo semelhante ao glucagon 1.
É um hormônio produzido naturalmente pelo organismo e envolvido, entre outras funções, na regulação da glicose e da ingestão de alimentos.
A semaglutida foi desenvolvida para se ligar ao receptor desse hormônio e ativá-lo. No controle do peso, essa ação está relacionada ao aumento das sensações de saciedade e satisfação e à redução da fome e da ingestão energética.
É por isso que algumas pessoas em tratamento relatam redução do apetite.
Isso não significa, entretanto, que o organismo simplesmente deixe de precisar de alimentação adequada ou que hábitos de saúde possam ser dispensados durante o tratamento.
Semaglutida é sempre usada para emagrecer?
Não.
Essa é uma das distinções mais importantes quando se fala no assunto.
Semaglutida é o princípio ativo, enquanto nomes comerciais diferentes podem corresponder a medicamentos com indicações aprovadas distintas.
O Ozempic foi inicialmente aprovado para auxiliar o controle glicêmico de adultos com diabetes mellitus tipo 2. O Wegovy foi aprovado para controle do peso em pessoas que atendem a critérios clínicos específicos, em associação a alimentação com redução calórica e aumento da atividade física.
Em 2026, a Anvisa também aprovou novas indicações relacionadas à semaglutida. O Wegovy passou a contar com indicação para redução do risco de eventos cardiovasculares graves em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso, enquanto o Ozempic recebeu uma ampliação de indicação para determinados pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica.
Portanto, dizer apenas que alguém “usa semaglutida” não informa, sozinho, qual doença ou condição está sendo tratada.
Toda “caneta emagrecedora” é semaglutida?
Também não.
A expressão “caneta emagrecedora” se popularizou para reunir medicamentos injetáveis que podem contribuir para o controle do peso, mas eles não são todos iguais.
A semaglutida e a liraglutida atuam no receptor de GLP-1.
A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, possui uma ação diferente: é agonista tanto do receptor de GIP quanto do receptor de GLP-1. No Brasil, a Anvisa ampliou em 2025 a indicação do Mounjaro para controle crônico do peso em adultos que atendam aos critérios definidos em bula, sempre em conjunto com alimentação de baixa caloria e aumento de atividade física.
Colocar todos esses medicamentos dentro de uma mesma expressão popular pode facilitar uma conversa cotidiana, mas não deve apagar suas diferenças farmacológicas, indicações, doses e cuidados.
Ozempic e Wegovy são a mesma coisa?
Os dois contêm semaglutida, mas isso não significa que sejam produtos intercambiáveis por decisão própria.
As indicações aprovadas, apresentações, doses utilizadas e orientações de tratamento precisam ser consideradas.
O fato de um mesmo princípio ativo aparecer em medicamentos diferentes é outro motivo para evitar escolher ou substituir uma medicação apenas com base em conteúdos de redes sociais, relatos de conhecidos ou resultados associados à perda de peso.
A indicação precisa levar em conta o quadro clínico da pessoa e o medicamento específico aprovado para aquela finalidade.
Por que esses medicamentos podem ajudar no controle do peso?
Uma das ações relacionadas ao GLP-1 acontece sobre os mecanismos que regulam fome e saciedade.
No caso da semaglutida utilizada para controle do peso, a ativação do receptor de GLP-1 contribui para diminuir a ingestão energética ao aumentar a saciedade e reduzir a sensação de fome.
Isso ajuda a pessoa a consumir uma quantidade menor de alimentos, mas não transforma o medicamento em uma solução isolada.
Os medicamentos aprovados para controle do peso são indicados em conjunto com mudanças relacionadas à alimentação e atividade física, considerando o acompanhamento clínico apropriado.
Por isso, a Profa. Kelly chama atenção para a maneira como o assunto costuma aparecer fora do ambiente médico:
“O debate precisa sair da busca por emagrecimento rápido e avançar para o cuidado integral. Alimentação, atividade física, acompanhamento profissional e saúde metabólica continuam sendo fundamentais.”
Quem pode usar semaglutida para controle do peso?
A indicação depende do medicamento específico, da condição clínica e dos critérios estabelecidos em sua bula.
No caso do Wegovy, a Anvisa registra indicação para controle do peso em adultos com obesidade ou em pessoas com sobrepeso associado a pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso, como hipertensão, alterações de glicemia, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono ou doença cardiovascular.
Isso ajuda a entender por que a decisão não deve partir apenas de alguém desejar perder alguns quilos.
“O fato de um medicamento ajudar na redução de peso não significa que seja apropriado para qualquer pessoa. Histórico de saúde, indicação clínica e acompanhamento são fundamentais”, explica a Profa. Kelly.
Por que a receita fica retida na farmácia?
Desde 23 de junho de 2025, farmácias e drogarias brasileiras precisam reter a receita de medicamentos abrangidos pelas regras dos agonistas de GLP-1.
A prescrição é realizada em duas vias e a receita possui validade de até 90 dias. A Anvisa adotou o controle mais rigoroso após identificar um número elevado de eventos adversos relacionados principalmente ao uso fora das indicações aprovadas.
A retenção da receita não significa que os medicamentos deixaram de ser considerados seguros ou eficazes para suas indicações aprovadas.
Ela reforça que são tratamentos que precisam de prescrição e acompanhamento adequado.
Quais efeitos adversos podem acontecer?
Os medicamentos dessa classe podem provocar efeitos adversos, e problemas gastrointestinais estão entre os mais conhecidos.
Dependendo do medicamento, podem ocorrer manifestações como náusea, vômito, diarreia e outros sintomas gastrointestinais. O perfil de riscos varia conforme a substância e precisa ser analisado a partir da bula e das condições de cada paciente.
Em fevereiro de 2026, a Anvisa reforçou ainda o alerta para pancreatite aguda associada a medicamentos dessa classe. A reação já constava nas bulas aprovadas, mas o aumento de notificações levou a Agência a destacar novamente a importância do uso conforme as indicações e do acompanhamento profissional.
A Anvisa orienta a busca imediata por atendimento médico diante de dor abdominal intensa e persistente, especialmente quando pode irradiar para as costas e vir acompanhada de náuseas e vômitos.
O risco de pancreatite significa que esses medicamentos não deveriam ser usados?
Não é essa a conclusão da Anvisa.
No alerta publicado em 2026, a Agência afirmou que não houve mudança na avaliação da relação entre benefícios e riscos desses medicamentos: para as indicações aprovadas e com utilização adequada, os benefícios terapêuticos continuam superando os riscos conhecidos.
O problema está justamente em tratar uma medicação sujeita a riscos e acompanhamento clínico como um produto de consumo comum.
Esse é um dos motivos pelos quais relatos pessoais de emagrecimento não servem para decidir se outra pessoa deveria utilizar o mesmo medicamento.
E se a caneta for comprada pela internet?
A procedência merece atenção especial.
Em 2026, a Anvisa intensificou fiscalizações sobre importação, produção, manipulação e comercialização irregular desses medicamentos. Entre os problemas identificados estavam falhas de esterilização, deficiências no controle de qualidade e utilização de insumos sem identificação adequada de origem ou composição.
A Agência também determinou a apreensão e proibição de diferentes produtos vendidos como canetas de GLP-1 sem registro sanitário. Produtos sem registro ou de origem desconhecida não oferecem garantia sobre aquilo que realmente contêm, sua qualidade ou sua segurança.
Por isso, preço menor, promessa de resultado rápido ou divulgação por influenciadores não são critérios para avaliar a segurança de um medicamento.
E as canetas manipuladas?
Esse é outro ponto que exige cuidado.
O crescimento da manipulação de medicamentos injetáveis relacionados ao GLP-1 levou a Anvisa a ampliar a fiscalização e revisar regras técnicas sobre origem dos insumos, esterilidade, controle de qualidade, armazenamento e transporte.
Medicamentos injetáveis exigem padrões rigorosos porque eventuais problemas de esterilidade ou composição podem representar riscos importantes.
A discussão sobre manipulação, portanto, não deve ser reduzida a uma comparação de preços entre produtos.
A semaglutida está sendo estudada e aprovada para outras finalidades
A trajetória desses medicamentos também ajuda a mostrar como uma mesma substância pode ganhar novas aplicações conforme aparecem evidências clínicas suficientes.
Em fevereiro de 2026, a Anvisa ampliou as indicações de medicamentos com semaglutida. O Wegovy passou a ter indicação para redução do risco de eventos cardiovasculares graves em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso. O Ozempic também recebeu indicação para determinados pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica.
Ao mesmo tempo, a Agência recusou incluir outras possíveis aplicações quando considerou que os dados apresentados ainda não eram suficientes para justificar uma nova indicação terapêutica.
Esse processo ajuda a entender uma parte importante da ciência dos medicamentos: resultados promissores de pesquisas não significam automaticamente que uma substância já esteja aprovada para determinada finalidade.
Obesidade não deve ser tratada apenas como uma questão estética
A discussão sobre semaglutida também abriu espaço para falar mais sobre a obesidade como uma condição de saúde.
A própria Anvisa, ao avaliar medicamentos para controle do peso, descreve a obesidade como uma doença de origem multifatorial, relacionada à interação de fatores biológicos, sociais, ambientais e comportamentais.
Isso torna problemáticas tanto a ideia de que emagrecer depende apenas de força de vontade quanto a expectativa de que uma medicação, isoladamente, resolva todas as dimensões envolvidas.
Tratamento pode envolver alimentação, atividade física, acompanhamento de saúde, avaliação de outras condições clínicas e, quando houver indicação, medicamentos.
No blog da FSA, esse assunto também aparece no conteúdo “Dia Mundial da Obesidade: ciência e prevenção”, que ajuda a ampliar a discussão para além do emagrecimento.
O que acontece quando a pessoa interrompe o tratamento?
Essa é uma dúvida importante justamente porque esses medicamentos aparecem muitas vezes associados a fotos de “antes e depois”.
O controle da obesidade não deve ser pensado apenas em torno de uma meta rápida na balança. A duração do tratamento, ajustes de dose, resultados esperados e eventual interrupção precisam fazer parte do planejamento realizado com o profissional responsável.
Parar, reiniciar ou modificar o tratamento sem orientação pode desconsiderar a condição que levou à prescrição e os efeitos que estavam sendo acompanhados.
Por isso, o tratamento não deve ser organizado a partir da expectativa de usar uma caneta por determinado número de semanas apenas para atingir um peso desejado.
Por que a Biomedicina estuda assuntos como esse?
Entender a ação da semaglutida envolve conhecimentos de fisiologia, bioquímica, metabolismo, endocrinologia e farmacologia.
O estudante precisa compreender como hormônios participam da regulação do organismo, como receptores celulares respondem a determinadas substâncias e como medicamentos podem alterar processos metabólicos.
Também entram nessa discussão a pesquisa científica, os estudos clínicos, a farmacovigilância e o acompanhamento dos efeitos adversos depois que um medicamento chega ao mercado.
Para a Profa. Kelly, a popularidade das canetas cria justamente uma oportunidade para aproximar essa ciência das conversas que já estão acontecendo fora dos laboratórios:
“A ciência trouxe novas possibilidades para o tratamento da obesidade e de doenças metabólicas. O desafio agora é garantir que essas ferramentas sejam utilizadas com segurança, indicação adequada e acompanhamento, sem transformar um tratamento médico em tendência de consumo.”
Para quem se interessa por metabolismo, medicamentos, análises laboratoriais e pelos mecanismos que explicam o funcionamento do organismo, esses são alguns dos assuntos presentes na formação em Biomedicina. Conheça o curso e as demais graduações da Fundação Santo André.