Planejamento financeiro pessoal: por onde começar quando você ainda está na faculdade?
Talvez a expressão “planejamento financeiro” faça você pensar em investimentos, planilhas complicadas ou em alguém que já tem um salário alto e precisa decidir onde aplicar o dinheiro.
Só que o começo é bem mais simples.
Se você recebe salário de estágio, trabalha, faz alguns serviços, conta com ajuda da família ou administra uma quantia mensal para transporte, alimentação e outras despesas, já toma decisões financeiras.
O planejamento entra justamente para ajudar a entender quanto dinheiro entra, para onde ele vai e o que precisa ser feito antes que a conta aperte.
E isso pode começar mesmo quando a renda ainda é pequena ou irregular.
Resposta rápida: como começar um planejamento financeiro pessoal?
O primeiro passo é registrar quanto dinheiro entra e quanto sai durante o mês.
Depois, separe as despesas por categorias, identifique o que é fixo e o que varia, observe se os gastos estão compatíveis com a renda e defina prioridades para os próximos meses.
A partir daí, o planejamento pode incluir controle das despesas, previsão de gastos futuros, organização de dívidas, uso consciente do cartão de crédito, construção de uma reserva e definição de objetivos.
Investimentos podem entrar depois, quando fizerem sentido para a sua situação.
O Banco Central define orçamento pessoal como um planejamento que mostra quanto você ganha, quanto gasta e com o que gasta.
É uma definição simples, mas resolve uma parte importante do problema: antes de decidir o que fazer com o dinheiro, você precisa saber o que já está acontecendo com ele.
Saiba mais sobre orçamento pessoal no Banco Central
“Mas eu ganho pouco. Ainda faz sentido me organizar?”
Sim.
Organização financeira não serve apenas para decidir o destino de grandes quantias.
Imagine que você recebe R$ 800 por mês de estágio.
Só de transporte, alimentação fora de casa, celular, streaming, algum lazer e compras pequenas, boa parte desse valor pode desaparecer sem que exista um gasto específico que pareça muito alto.
É justamente aí que registrar as despesas ajuda.
Você talvez descubra que determinado gasto está maior do que imaginava. Ou perceba que sobra algum valor todos os meses, mas ele acaba sendo usado porque não tinha uma finalidade definida.
O objetivo não é criar culpa por cada café, lanche ou saída, é conseguir escolher com mais clareza onde o dinheiro será usado.
Dê um pulo no artigo “Dá para estudar e trabalhar ao mesmo tempo?”
Comece descobrindo quanto realmente entra
Parece óbvio, mas essa conta nem sempre é tão simples.
Algumas pessoas recebem um salário fixo. Outras combinam várias fontes de renda, como estágio, bolsa, trabalhos como freelancer, comissão, ajuda da família ou pequenos serviços.
Se a renda muda de um mês para outro, evite montar todo o orçamento com base no melhor mês que você já teve.
Pode ser mais seguro observar os últimos meses e identificar quais receitas são previsíveis e quais acontecem ocasionalmente.
Quem costuma receber R$ 1.200, por exemplo, mas ganhou R$ 1.800 em determinado mês por causa de um trabalho extra, não deveria necessariamente assumir que terá R$ 1.800 disponíveis todos os meses.
Depois, descubra para onde o dinheiro está indo
Aqui não precisa começar com uma planilha elaborada.
Durante um mês, registre os gastos.
Pode ser no celular, em um aplicativo, em uma planilha ou em um caderno. O método importa menos do que conseguir visualizar os dados.
Você pode separar as despesas em categorias como moradia, transporte, alimentação, educação, contas, lazer, saúde e compras pessoais.
Depois de algumas semanas, alguns padrões começam a aparecer.
O Portal do Investidor, mantido pela Comissão de Valores Mobiliários, recomenda justamente começar identificando a situação financeira atual, observando para onde o dinheiro vai e planejando os gastos futuros.
Veja as orientações do Portal do Investidor, disponível no gov.br
Despesa fixa e despesa variável são a mesma coisa?
Não.
Essa diferença ajuda bastante na organização.
Despesas fixas são aquelas que costumam ter valor semelhante ou representam um compromisso recorrente, como mensalidade, aluguel ou plano de celular.
Despesas variáveis mudam ao longo do mês, como alimentação fora de casa, lazer e transporte por aplicativo.
Há ainda gastos que não acontecem todos os meses, mas são previsíveis.
Material da faculdade, manutenção do carro ou uma viagem planejada não são exatamente emergências só porque não aparecem mensalmente.
Por isso, olhar apenas para o mês atual pode esconder despesas que você já sabe que virão.
Planejar não é apenas olhar o que já gastou
Registrar as despesas mostra o passado.
O passo seguinte é usar essas informações para decidir o que acontecerá nos meses seguintes.
Se você sabe que terá um gasto maior em dezembro, pode começar a separar parte do dinheiro antes.
Se uma assinatura quase não é utilizada, pode avaliar se ainda faz sentido mantê-la.
Se percebe que o transporte está consumindo mais do que esperava, pode incluir esse valor corretamente no orçamento.
O Portal do Investidor também diferencia o registro do que já aconteceu do planejamento das receitas e despesas futuras.
É aí que planejamento deixa de ser apenas controle.
Preciso usar a regra 50-30-20?
Não.
Você provavelmente já encontrou essa regra nas redes sociais: 50% para necessidades, 30% para desejos e 20% para poupar ou investir.
Ela pode funcionar como referência para algumas pessoas, mas não é uma regra universal.
Um estudante que paga aluguel e faculdade pode ter uma distribuição completamente diferente de alguém que mora com a família.
Uma pessoa que acabou de entrar no mercado de trabalho também pode ter pouco espaço para guardar 20% da renda.
Por isso, não faz muito sentido olhar para uma porcentagem e concluir automaticamente que você está administrando mal o dinheiro.
Primeiro entenda a sua realidade. Depois, veja quais ajustes são possíveis.
E se todo o meu dinheiro já estiver comprometido?
Nesse caso, o planejamento continua sendo útil.
Ele pode mostrar que o problema não está em um gasto pequeno ou em falta de organização, mas simplesmente em uma diferença muito apertada entre renda e despesas essenciais.
Talvez não exista espaço imediato para economizar uma porcentagem específica.
A prioridade pode ser evitar novas dívidas, reorganizar despesas quando possível, negociar compromissos existentes e procurar alternativas para aumentar a renda.
Planejamento financeiro não faz aparecer dinheiro que não existe.
Ele ajuda a enxergar a situação para tomar decisões com mais informações.
Cartão de crédito é dinheiro extra?
Não.
O limite do cartão não aumenta sua renda.
Se você recebe R$ 1.500 por mês e possui R$ 4.000 de limite, não significa que tenha R$ 5.500 disponíveis.
Uma compra no cartão apenas transfere o pagamento para outro momento.
Isso pode ser útil para organizar determinadas despesas, especialmente quando a data de pagamento é conhecida.
O problema aparece quando a fatura começa a reunir parcelas antigas, compras atuais e novos parcelamentos sem que você saiba quanto da renda do mês seguinte já está comprometida.
Uma prática simples é registrar a compra quando ela acontece, não apenas quando a fatura chega.
Se você comprou algo de R$ 300 dividido em três vezes, já sabe que terá R$ 100 comprometidos nos próximos três meses.
Parcelar uma compra é sempre ruim?
Também não.
Parcelamento é uma ferramenta e o importante é saber qual compromisso está sendo assumido.
Uma compra parcelada pode caber tranquilamente no orçamento.
Várias compras parceladas ao mesmo tempo podem fazer com que boa parte da renda dos próximos meses já esteja comprometida antes mesmo de eles começarem.
Antes de parcelar, observe o valor total da compra, a quantidade de parcelas, a existência de juros e quanto das próximas faturas já está comprometido.
Olhar apenas para o valor da parcela pode fazer um produto caro parecer mais barato do que realmente é.
E quando já existem dívidas?
Nesse caso, elas precisam entrar no planejamento.
Vale reunir informações como saldo da dívida, número de parcelas, taxa de juros, valor mensal e prazo para terminar.
Dívidas com juros elevados merecem atenção porque podem crescer rapidamente.
Mas cada situação financeira é diferente. Quando existem várias dívidas ou dificuldade para manter despesas básicas, pode ser necessário buscar orientação específica.
Também é importante desconfiar de soluções que prometem eliminar dívidas rapidamente mediante pagamento antecipado ou contratação de novos créditos sem explicar claramente os custos envolvidos.
O que é uma reserva de emergência?
É um dinheiro separado para situações inesperadas.
Imagine que seu notebook quebre no meio do semestre e você dependa dele para estudar e trabalhar.
Ou que uma fonte de renda seja interrompida.
Ter algum dinheiro disponível pode reduzir a necessidade de recorrer imediatamente a empréstimos ou ao cartão.
O Portal do Investidor inclui a reserva para emergências entre os objetivos que podem fazer parte de uma organização financeira e apresenta, como referência geral, a construção de um montante equivalente a alguns meses de gastos.
Isso não significa que um estudante precise conseguir guardar vários meses de despesas logo de início.
Se você ainda está começando, R$ 50 ou R$ 100 guardados não resolvem todos os imprevistos, mas representam o começo de uma reserva.
Ela pode ser construída gradualmente.
Entenda mais sobre reserva para emergências
Reserva para viagem e reserva de emergência são a mesma coisa?
Não.
Uma viagem planejada é um objetivo.
Uma emergência é algo inesperado.
O mesmo raciocínio serve para matrícula, presentes de fim de ano, manutenção programada ou qualquer gasto que já possa ser previsto.
Mesmo que essas despesas não aconteçam todos os meses, você sabe que elas chegarão.
Separar os objetivos ajuda a evitar usar o dinheiro reservado para uma emergência em algo que já estava no calendário.
Preciso começar a investir agora?
Não necessariamente.
Investir é uma etapa possível do planejamento financeiro, não a primeira obrigação de quem começa a organizar o dinheiro.
Antes de escolher um investimento porque alguém disse que ele rende mais, é importante entender qual é o objetivo daquele dinheiro, quando você pretende utilizá-lo, quanto risco consegue assumir, quais são os custos e se o produto é adequado à sua situação.
Por isso, começar pelo orçamento não significa estar atrasado.
É criar uma base para decisões futuras.
“Tenho R$ 100 sobrando. O que faço?”
Antes de procurar o investimento que promete o maior rendimento, faça algumas perguntas:
- Você possui alguma dívida com juros altos?
- Tem uma reserva para imprevistos?
- Vai precisar desse dinheiro no próximo mês?
- Existe algum gasto previsível chegando?
- Qual é o objetivo desse valor?
Dependendo das respostas, os mesmos R$ 100 podem ter destinos diferentes.
Para uma pessoa, podem começar a formar uma reserva.
Para outra, podem ajudar a quitar uma dívida.
Para alguém que já tem as finanças organizadas, podem entrar em um investimento relacionado a um objetivo específico.
Uma recomendação genérica dificilmente funciona para todas as situações.
Objetivos tornam o planejamento mais concreto
“Quero guardar dinheiro” é um começo.
Mas fica mais fácil organizar quando existe um objetivo.
No curto prazo, você pode querer comprar um notebook.
No médio prazo, talvez pretenda fazer um curso de idiomas.
Mais adiante, pode querer formar uma reserva maior, fazer uma pós-graduação ou planejar uma mudança.
O Portal do Investidor recomenda que os objetivos pessoais sejam considerados na organização financeira porque ajudam a orientar gastos, reservas e decisões de investimento.
Veja como definir objetivos financeiros
Também é normal que esses objetivos mudem.
O estudante que hoje quer comprar um computador pode, daqui a dois anos, estar planejando outra etapa da formação ou uma mudança de cidade.
O orçamento pode acompanhar essas mudanças.
Uma planilha é obrigatória?
Não.
Tem gente que gosta de abrir uma planilha, criar categorias e acompanhar cada número.
Outras pessoas abandonam esse método depois de três dias.
Você pode usar aplicativo financeiro, planilha, bloco de notas, caderno ou recursos do próprio banco.
O melhor método é aquele que permite enxergar as informações sem transformar a organização financeira em uma tarefa tão trabalhosa que você desista de mantê-la.
A CVM também disponibiliza gratuitamente um Guia de Planejamento Financeiro, acompanhado de material para quem prefere uma estrutura pronta.
Consulte o Guia de Planejamento Financeiro da CVM
Como montar um planejamento financeiro simples?
Se você quiser começar hoje, pode seguir uma sequência básica.
Primeiro, anote tudo o que recebe e liste as despesas que já comprometem parte da renda todos os meses.
Depois, acompanhe durante algumas semanas os gastos que variam, como alimentação, transporte, lazer e compras.
Verifique também se existem dívidas e quais valores já estão comprometidos nos próximos meses.
Em seguida, observe gastos que virão no futuro e escolha um objetivo financeiro possível para começar.
Pode ser organizar uma dívida, criar uma pequena reserva ou juntar dinheiro para alguma necessidade específica.
Depois de algum tempo, volte ao orçamento e veja se ele continua fazendo sentido.
Sua renda, seus gastos e seus objetivos podem mudar.
Não precisa resolver toda a vida financeira em uma tarde.
A primeira organização já pode mostrar qual será o próximo passo.
Planejamento financeiro também está em discussão na FSA
O tema também aparece entre as atividades acadêmicas desenvolvidas na Fundação Santo André.
Neste mês, o Prof. Dr. Luiz Antônio de Oliveira Dantas lança o livro “O Poder da Mente nas Finanças”, publicação que aborda a relação entre comportamento, decisões e vida financeira.
A conexão é interessante porque organizar as finanças não depende apenas de conhecer contas, juros ou investimentos. Nossas decisões também são influenciadas por hábitos, prioridades e pela maneira como lidamos com o dinheiro no cotidiano.
Para quem se interessa por esses assuntos profissionalmente, áreas como Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas permitem aprofundar temas relacionados a finanças, gestão, negócios e tomada de decisão.
Conheça os cursos de graduação da FSA
Para quem já concluiu uma graduação, a Fundação Santo André também oferece opções de pós-graduação relacionadas a negócios, gestão e outras áreas profissionais.
Conheça os cursos de pós-graduação da FSA
Finanças também podem ser uma área profissional
Organizar o próprio orçamento é diferente de trabalhar profissionalmente com finanças.
Mas o interesse que começa ao tentar entender renda, crédito, investimentos e decisões financeiras pode levar a perguntas maiores sobre como empresas e mercados funcionam.
Na Administração, temas financeiros aparecem ao lado de gestão, estratégia, marketing, pessoas e operações.
Em Ciências Contábeis, o estudante trabalha com informações patrimoniais, financeiras, tributárias e gerenciais que ajudam pessoas e organizações a compreender sua situação econômica.
Já Ciências Econômicas envolve estudos sobre mercados, políticas econômicas, produção, consumo, emprego, inflação e outras questões que afetam empresas, governos e famílias.
Para quem ainda está escolhendo uma graduação, comparar essas formações pode ajudar a entender qual abordagem se aproxima mais dos seus interesses.